quinta-feira, 16 de junho de 2011

Soltar os pensamentos como se empinam as pipas?

(1ª parte)

Prof. Dr. Silvio Wonsovicz


Para aqueles que respeitam e vibram com a infância e todos os que lembram com saudades dos tempos de criança uma frase de quem, ainda hoje empina pipas e solta os pensamentos: “sem vento não tem pipas”. Utilizo da mesma frase para todos os educadores – “sem educandos não há escolas” e, também para os que buscam um ensino filosófico desde os primeiros anos – “sem as crianças não se filosofa e elas são filósofas por essência”.

Quanto menores as crianças e aqui quero pensar, com cada leitor, os alunos da Ed. Infantil e dos primeiros anos escolares, que são muito questionadores e investigadores. Eles estão querendo saber o porque de tudo e entender o que e como tudo acontece. Por isso tem algo em comum com os filósofos, estão e são inquietos, curiosos, questionando tudo e, muitas vezes é só o questionamento o que importa.

 
Filosofar: soltando pipas contra o vento
É nos primeiros anos de vida que se inicia nas crianças o desenvolvimento de habilidades, tanto motoras quanto cognitivas, afetivas quanto sociais. Também a criação de maneiras de se relacionar com as pessoas e com o mundo. Nada melhor que neste primeiro instante de desenvolvimento e aprendizagem iniciar uma introdução ao filosofar. A pergunta que fica para os adultos responsáveis por esse início é muitas vezes traduzida por: como introduzir crianças ao filosofar?

Respostas podem ser pensadas a esta pergunta e uma certeza nós podemos ter: “crianças são filósofas enquanto pensam, sentem e agem”. Portanto ao desafiarmos crianças pequenas a soltarem seus pensamentos, escutarem os seus pensamentos e dos outros, a olharem o mundo pelo olhar dos colegas, estamos soltando pipas contra o vento. Isto é mostrando para aqueles que pensam que a filosofia é coisa muito séria para ser feita por crianças que as pipas somente podem voar se forem empinadas contra o vento.

Aqueles que se lembram da própria infância e os que conhecem crianças hoje sabem que elas sempre estão abertas à aprendizagem e, com todos os recursos necessários para sua sobrevivência na perspectiva de compartilhar e conviver (entendido como com-partilhar e com-viver). As crianças são naturalmente “questionadoras e investigadoras”, admirando-se (no sentido aristotélico do filosofar) com o mundo em que começam a existir. Motivadas por uma fome de compreender todas as coisas, por isso a imensidade de perguntas pois, há uma disposição para aprender e compreender e aí surge o primeiro filosofar pois, tudo é novidade e, é preciso falar sobre isso.

Assim como soltar pipas mostra uma leveza e um estado de ânimo, a pureza das crianças é linda e, todos os que soltam os pensamentos percebem a leveza da criança ao se manifestar, por isso elas devem ser cuidadas com muito respeito, entendimento e carinho, para que através da aprendizagem reflexiva, o desenvolvimento seja sadio em todos os aspectos. Assim filosofar ajudando a desvendar o mundo, a criar perguntas que as auxiliem nessa exploração e descobertas; a encontrar respostas e perceber que nem tudo tem resposta; a encontrar e construir significados e conceitos; a desenvolver um pensamento e imaginação através de atividades sadias e edificantes. Soltar os pensamentos e organizar as ações com a leveza e encantamento de soltar pipas contra o vento para que a mesma possa ir mais longe.



quinta-feira, 9 de junho de 2011

O cinismo à sombra da filosofia de Diógenes: “o cão do céu”.

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva


(foto: Breno Bastos)



















Geralmente o cínico é avesso à sensibilidade alheia. É bastante indiferente ao outro. Parece que o mundo à sua volta não lhe agrada tanto quanto deveria. Tudo parece girar em torno de seu eixo e de suas verdades. O cínico é mesmo louco por suas ideias, vez por outra solta uns lampejos firmes de refinada inteligência e perspicaz visão da realidade, destruindo opiniões óbvias e correntes de seu tempo. Na maioria das vezes, é dissimulado, ríspido com os afetos e constantemente contrário a quase tudo. Nada ou quase nada lhe satisfaz, aliás, a satisfação não faz parte de seu vocabulário irônico, a não ser que esteja em jogo a natureza, pura e simplesmente. A saciedade não é coisa para espíritos fortes e intragáveis como os do cínico.

A pessoa cínica parece sofrer de síndrome da super sinceridade. É um super sincero em potencial. A verdade, custe o que custar, é para o cínico como o seu pão de cada dia. Ele gosta, tem o maior prazer em falar a verdade na hora mais indelicada, no momento mais inconveniente. O cínico é despojado de bons costumes, de luxo, de uma vida opulente e assim por diante. Um exemplo disso é a famosa vida desprendida do cínico Diógenes que, dentre outras curiosidades que cerceiam sua história, morava num tonel e gostava de fazer suas necessidades sexuais nas ruas e praças, também fazia suas refeições ao ar livre sem escrúpulo algum. Vivia como um cão: “Perguntaram-lhe que espécie de cão ele era; sua resposta foi: 'Quando estou com fome, um maltês; quando estou farto, um molosso – duas raças muito elogiadas, mas as pessoas, por temerem a fadiga, não se aventuram a sair com eles para a caça. Da mesma forma não podeis conviver comigo; porque receais sofrer'. A alguém que lhe disse: 'Muita gente ri de ti', sua resposta foi: 'Mas eu não rio de mim mesmo”(LAÊRTIOS, Diógenes. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Brasília, UNB. 1977. p. 166). A despeito disso, “enquanto Diógenes fazia sua primeira refeição na praça do mercado os circunstantes repetiam: 'cão', e Diógenes dizia: 'Cães sois vós, que estais à minha volta enquanto faço a minha refeição!' Certa vez, Alexandre o encontrou e exclamou: 'Sou Alexandre, o Grande Rei'; 'E eu', disse ele, 'sou Diógenes, o cão'. Perguntaram-lhe o que havia feito para ser chamado de cão, e a resposta foi: 'Balanço a cauda alegremente para quem me dá qualquer coisa, ladro para os que recusam e mordo os patifes”(idem, p. 167).

Na verdade, Diógenes, tratado por Platão e pela tradição filosófica de cão, talvez por possuir dentes finos e língua afiada, era muito sábio para ceder aos limites das convenções sociais e políticas de sua época. Sua vida foi toda ela ligada ao jeito socrático, irônico e impassível de ser. “A alguém que lhe disse: 'És velho, repousa!' Diógenes respondeu: 'Como? Se estivesse correndo num estádio eu deveria diminuir o ritmo ao me aproximar da chegada? Ao contrário, deveria aumentar a velocidade. Conta Hecáton, no primeiro livro de suas Sentenças que certa vez Diógenes gritou: 'Atenção, homens!', e quando muita gente acorreu, ele brandiu o seu bastão dizendo: 'Chamei homens, e não canalhas'. Conta-se que Alexandre, o Grande, disse que se não tivesse nascido Alexandre gostaria de ter nascido Diógenes”(idem, p. 160). 

Não se incomoda em incomodar. É um inconformado por natureza. Não é passional a nada, a coisa alguma, menos ainda a algum tipo de sentimento. Resiste às críticas de modo infalível, e sai ileso de cada uma delas. Dificilmente um cínico se aborrece com palavras de alguém. É muito nobre na arte de ironizar. Afinal de contas, a ironia é o seu grande negócio ou, até mesmo, sua arma de defesa contra seus inimigos, isto é, seus opositores. “Durante o dia Diógenes andava com uma lanterna acesa dizendo: 'Procuro um homem!' Certa vez, ele estava imóvel sob forte chuva; enquanto os circunstantes demonstravam compaixão, Platão, que estava presente, disse: 'Se quiserdes compadecer-vos dele, afastai-vos', aludindo à sua vaidade. Um dia alguém o golpeou com o punho e Diógenes disse: 'Por Heraclés! Esqueci-me de que se deve caminhar protegido por um capacete!' Alexandre, o Grande, chegou, pôs-se à sua frente e falou: 'Pede-me o que quiseres!' Diógenes respondeu: 'Deixa-me o meu sol'”(idem, p. 162).

Apto em atingir seus oponentes com palavras afiadíssimas, o cínico é semelhante à pedra ou ao ferro, forte e cortante, devido à extraordinária resistência aos conflitos de ideias. Mostra-se hábil na arte de falar e de persuadir as pessoas. O cínico é uma verdadeira máquina de pensar e de guerrear com palavras. Os argumentos de um cínico são incrivelmente convincentes, aguçados e lógicos. Frio e pusilânime, por inúmeras peculiaridades, o cínico é encantador na forma de debater variados assuntos sobre a vida e de celebrar maravilhosamente a liberdade de expressão: “A alguém que lhe perguntou qual era a coisa mais bela entre os homens, esse filósofo respondeu: A LIBERDADE DA PALAVRA”(idem, p. 169). 
Após a morte de um dos mais famosos cínicos da Grécia Antiga, ao lado de Antístenes, que difundiu tal escola, Diógenes legou supostamente uma imagem boa, de um homem abnegado das coisas materiais e supérfluas, que difundiu a ideia da felicidade pelos esforços requeridos à natureza, conforme à natureza simplesmente. Dele falaram: “Já não existe, ele, que foi cidadão de Sinope, famoso por seu bastão, pelo manto dobrado e por viver ao ar livre; foi para o céu, apertando os lábios contra os dentes e prendendo a respiração, tendo sido realmente um verdadeiro Diógenes de Zeus, cão do céu”(idem, p. 171).