quinta-feira, 21 de julho de 2011

De Religiões e Planeta: breves notas

Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos.

"Deus é Amor. Para nos ensinar a amar, ele inspirou o aparecimento das religiões. Deus mesmo não tem religião, mas pode ser encontrado através de todas elas" (Frei Betto)

O objetivo das religiões ou tradições religiosas é possibilitar ao ser humano a construção de um sentido de vida. O Ensino Religioso trabalha o diálogo inter-religioso, com o objetivo de conhecer e compreender o conhecimento historicamente acumulado pelas diferentes tradições religiosas. Quando este conhecimento é estudado e aprendido, quebram-se muitos dos nossos preconceitos. A gente aumenta as possibilidades de compreensão da religiosidade dos outros quando conhecemos os fundamentos e razões de sua religiosidade.

  É possível dizer que não há como trabalhar o Ensino Religioso nas escolas sem falar da dimensão do amor, um dos valores mais sagrados e exaltados pelas religiões. O amor é compreendido na dimensão do cuidado: consigo mesmo, com os outros e com o planeta (demais seres vivos). O amor, valor universal pregado pelas religiões, é a base da preservação da vida e pilar na busca da felicidade e dignidade humanas. Propõe, ainda, a superação do individualismo exacerbado.

Se existem em torno de 65 mil religiões no mundo e, aproximadamente, 5 mil diferentes denominações religiosas no Brasil, é porque em nosso momento histórico vivemos carentes de espiritualidade e de respostas existenciais. Estamos falando de um mundo que evoluiu extraordinariamente na compreensão dos fenômenos da natureza e na produção de altas tecnologias que buscam facilitar a vida dos seres humanos, mas este mesmo mundo não foi capaz de possibilitar respostas que levem à plena felicidade e realização do ser humano.

Nosso mundo é feito de grandes contradições. Ao mesmo tempo em que festejamos os avanços tecnológicos na produção de alimentos, por exemplo, ainda há muita fome no mundo e no Brasil. Enquanto nosso PIB cresce, permanece a concentração de nossa renda. Enquanto ainda ocorre o abandono do campo, acontece a ocupação desordenada e perigosa nas periferias das grandes cidades. Enquanto buscamos paz, ainda muitos promovem a guerra em nome de seus interesses mesquinhos e individualistas. Enquanto nos orgulhamos com projetos de irrigação, poluímos nossas fontes de água potável, indispensáveis para a nossa sobrevivência. Tudo isto porque nos orientamos pelos valores individualistas e egoístas, que não nos permitem ocupar a terra e o planeta de forma racional e sustentável. Tudo isto porque produzimos tecnologias avançadas com a intenção de tão somente alimentarmos a ideologia de nosso consumo, ideologia esta que tem sido a base de nosso padrão de convivência e civilização.

É impressionante como já temos muitas informações sobre como deveríamos agir diante da vida e do planeta. O que temos como informação, deve agora traduzir-se em conhecimento. Este é o papel da escola e da educação: dar sentido útil e prático àquilo que todos nós já sabemos e aprendemos sobre a sustentabilidade, o meio ambiente, o bem-estar social, a biodiversidade, os demais seres vivos.

Há que se re-inventar nosso modo de viver e agir no mundo. Fala-se de uma Ética do Cuidado, onde as novas relações, hábitos e a mudança de nossas mentalidades façam a escolha de preservar a vida. É chegada a hora da evolução de nossa consciência. As futuras e a atual geração têm de ser beneficiadas por esta escolha. As religiões podem e devem nos orientar para que, em vida, possamos usufruir das melhores condições de vida e dignidade, em harmonia com o nosso ambiente.

Comece você mesmo, agora, a tomar pequenas atitudes que resultem na preservação da vida no planeta. Você faz a diferença! E esta diferença deve amenizar o impacto da ocupação que você faz da natureza, a partir dos seus recursos naturais. Não esqueça que as crenças, a vida dos seres vivos e as boas atitudes são o que de mais sagrado podemos dispor para o mundo.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

TEMATIZANDO A HISTÓRIA

Jéferson Dantas1


A história brasileira recente está longe de ser totalmente revelada. A tentativa por parte de organizações defensoras dos direitos humanos em se retomar as buscas dos corpos dos/a desaparecidos/as políticos na guerrilha do Araguaia (década de 1970), assim como a abertura de documentos sigilosos que comprovam o extermínio dos guerrilheiros por setores das Forças Armadas, representa ainda um vespeiro que muitos não querem trazer à tona. Os/as cientistas sociais são impedidos/as de ter acesso aos ‘documentos confidenciais’ produzidos pelas agências de repressão durante a ditadura militar em nosso país. Contudo, a história não pode ser negada às gerações que não vivenciaram os anos de silenciamento político e de mordaças compulsórias.

Nesta direção, uma das maneiras do conhecimento histórico se tornar atraente para crianças e jovens escolarizados/as é a tematização da história recente do Brasil e da América Latina, através de materiais didáticos que não privilegiem uma perspectiva historiográfica eurocêntrica e meramente conteudista. As questões do presente devem ser apontadas desde cedo para as crianças em processos de escolarização e, posteriormente, – com os cuidados de linguagem e categorias de análise empregadas – devidamente relacionadas com as dimensões históricas mais afastadas no tempo e no espaço. Os recortes temáticos são assim fundamentais para que um debate não se esgote em apenas uma aula ou uma atividade em grupo. O tema ‘ditadura militar’, por exemplo, é um assunto que demandaria muita pesquisa, busca por evidências históricas, análise de conjuntura, mapeamento das guerrilhas urbanas e rurais, aparelhamento do Estado a partir de agências de tortura, etc..

Categorias ou conceitos vagos, além do pouco dinamismo didático nos bancos escolares são muito recorrentes nas escolas brasileiras. Ainda mais quando determinadas instituições de ensino estão mais preocupadas em ‘formar’ fazedores de provas do que, propriamente, sujeitos históricos intervenientes. As permanências históricas estão mais vivas do que nunca, através de milícias particulares que assassinam pequenos agricultores e lideranças rurais a mando de latifundiários; do patrimonialismo e do clientelismo nos setores de serviços públicos; e do analfabetismo pleno e funcional alarmantes. Negar o acesso às fontes históricas – matéria-prima dos/as pesquisadores/as – também é uma forma de silenciar as falas dos dissensos e a constituição de novos espaços de disputa. 
 
1 Historiador e doutorando em Educação (UFSC). E-mail: clioinsone@gmail.com