quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Livro uma proposta solidária

Prof. Ms. Marney Ferreira Cruz
UFC e FGF

Aos 13 anos tive a sorte de ter uma professora maravilhosa que me despertou o prazer pela leitura através da sugestão, quase imposta, do livro "Dom Casmurro", de Machado de Assis, que me garantiu aprovação na 7ª série (hoje 8º ano).

Por vias do destino mexia nos livros dos meus irmãos e, garimpando, me deparei com jóias do tipo "A Metamorfose", de Kafka e o Anti-Cristo de Nietszche que me transformaram em um dependente buscador pelo saber. Daquela época até hoje se passaram 19 anos onde milhares de títulos passaram por minhas mãos e alimentaram minha alma e espírito crítico.

Desperto por um universo de grandes intelectuais ainda me espanto com várias intrigantes questões. Como me tornei um crítico algoz de uma sociedade de consumo e egoísmo que não se preocupa com o outro?

Outro dia observava, em um semáforo, um pedinte e busquei repostas para a seguinte questão: Como seria nossa sociedade se esses cidadãos de direito pedissem além de trocados, um livro que alimentasse suas mentes nas noites frias e vazias até que a fome passasse?
Não encontrei a resposta, mas dôo livros sempre que posso na esperança de um futuro melhor, mesmo que só para aquele que lê.

À anos que não passo um dia sequer sem ler algumas ou muitas páginas e, mesmo que isso raramente aconteça, sinto uma ânsia e vontade, que falta de comida ou vontade de comer nunca produziram em mim.

Vários foram os poetas e escritores que, mesmo aprisionados, pediam, ao invés de comida, livros, muitos livros, como no caso de Bertold Brecht, Dostoieviski e Gramsci que enquanto seus corpos estavam presos, seus espíritos viajavam até o mais distante e maravilhoso rincão.

Mas mesmo distante das pessoas amadas, estando aprisionado, faminto ou distante do leito materno, o amante do saber, busca nos livros algo que sustente seus sonhos e situação humana.

Caso semelhante aconteceu comigo, quando residi em Brasília, por seis anos. Lá encontrei a possibilidade de retornar à terra-natal, em uma parada de ônibus repleta de livros, para quem ouse pegá-los.

Deparei-me assim, na situação, com o livro Iracema de José de Alencar, ali na minha frente, em uma prateleira ricamente adornada com um dos bens mais preciosos do homem: os livros.
Os usuários dos famigerados transportes coletivos do Distrito Federal, que já foi considerado como um dos piores sistemas de transportes do Brasil, têm a oportunidade de pegar livros e de devolverem quando quiserem, graças a iniciativa do proprietário de um açougue, (pasmem!) um açougue, que recebe doações de livros e dispõem em dezenas de paradas no Plano Piloto de Brasília.

Dessa forma lanço uma proposta solidária que muitos já a exercitam: após lerem um livro, deixem-no em alguma parada de ônibus, para que outro possa voar e desfrutar do prazer que você sentiu.
Esse ato de Amor, palavra essa que tem sentido para muitos como Frederico Garcia Lorca, que equivale a livro, isso mesmo “Amor=Livro”.
Como o Amor, o livro deveria ser mais dado e recebido.

PS: Minha homenagem a todos que tanto precisam de alimento e saber.



quinta-feira, 15 de setembro de 2011

De uma presença ausente


Prof. Nei Alberto Pies*

“Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma... Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa... por isso sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas; pode ser a última vez que as vejamos”. (Mensagem - Depois de algum tempo, autor desconhecido)

            A lacuna da morte de alguém muito próximo da gente como nosso pai, nossa mãe, nosso irmão ou irmã, nosso amigo ou amiga, nosso avô ou avó sempre nos remete a um dos mais difíceis aprendizados da vida humana: conviver com a presença ausente. O desafio que se coloca a todos é reconhecer sentido para a nossa existência, pois a morte de alguém sempre deve nos remeter para a pergunta sobre o tipo de vida e de relações que construímos de forma individual e coletiva.

            Cada um de nós carrega de sentido a sua existência através das relações interpessoais pelas quais nos “fazemos gente”. Por mais que tentemos, ninguém consegue sobreviver e, quiçá, ser feliz sozinho. Esta característica da interdependência é também, de certeza, um dos maiores desafios de nossa própria humanização, pois conceber-se integrado e conectado com os outros exige que saibamos lidar com a superação dos próprios egoísmos.

            A vida comunitária, herança de nossas primeiras e mais primitivas comunidades, re-significa o sentido da morte de uma pessoa. As comunidades religiosas são, sobretudo, o lugar onde fazemos a memória de nossos mortos, buscando apreender de seus ensinamentos, exemplos e virtudes. 

  Na comunidade somos reconhecidos por nossos feitos e desfeitos. São muito mais felizes aqueles que podem desfrutar durante a vida, e no momento de sua morte, dos valores comunitários. Quem tem uma comunidade e leva uma vida comunitária vive mais feliz e poderá morrer mais feliz ainda. A comunidade é também o lugar onde damos vazão aos nossos medos, fantasmas e incompreensões, refazendo-nos permanentemente. Por isso mesmo, cada um deve ser reconhecido e tratado com dignidade, pois é a referência de si mesmo (alteridade). A comunidade, por sua vez, é o espaço em que lapidamos o nosso ser pessoal e social, onde ousamos viver a nossa subjetividade, buscando o reconhecimento.

Um dos grandes ensinamentos de meu querido e saudoso pai foi ter-me ensinado que para sobreviver precisamos de muitas poucas coisas, mas que precisamos nos apegar ao que é fundamental: a família e a comunidade. Ensinou-me ainda, que é preciso amar as crianças e os mais velhos porque estes são os sujeitos da comunidade que mais precisam de nossa ajuda e proteção. Meu pai também comprovou, a si mesmo e aos outros, que sempre é bom e necessário reconciliar-se com os outros para reconciliar-se consigo mesmo. Ensinou-me tantas coisas, demonstrando especial atenção aos valores do trabalho, do amor e a da fé. Como a maior parte dos pais, soube valorizar as conquistas de seus filhos como se fossem também as suas. Soube apontar, na medida do seu universo, os caminhos que seus filhos poderiam trilhar. Soube constituir-se sujeito, a partir da comunidade.

Conviver com a presença ausente é deparar-se com os interstícios entre as palavras, as ações, os gestos e os exemplos de nossos entes queridos. As lembranças se encarregam de re-colocar, permanentemente, que cada pessoa tem algo a nos ensinar porque é única, sagrada, genuína. A presença ausente é, também, prova de que a vida se faz na experiência compartilhada, nas memórias e nas histórias de todos os que na comunidade se fazem protagonistas.
 *professor e ativista de direitos humanos.