quinta-feira, 1 de março de 2012

O Ensaio filosófico

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

“Quem for capaz de ter uma visão do conjunto é dialético; quem não o for, não é”
(Platão, República, 537c).

“O ensaio pensa em fragmentos”
(Adorno, O ensaio como forma).

A primeira vista, a palavra “ensaio” pode soar a algo que não tem validade, não tem importância, a exemplo de um ensaio para um show, para uma música, para uma peça. Qualquer ensaio está relativamente condicionado ao que não é, pelo menos ainda. Popularmente a palavra ensaio aparece muitas vezes carregada desse sentido, o que não nos impede de ir mais longe ou de ir até Montaigne para mostrar a pertinência de um ensaio filosófico. O estilo ensaístico persegue todo aquele que se arrisca a escrever livremente sobre um determinado aspecto da realidade, embarcando na aventura de trazer para si e sobre si quaisquer pensamentos, como que recortando, fragmentando a realidade para si.

Já no século passado, ninguém talvez soube dizer tão bem quanto Foucault o que é um ensaio.
“O ensaio – que é necessário entender como experiência modificadora de si no jogo da verdade, e não como apropriação simplificadora de outrem para fins de comunicação – é o corpo vivo da filosofia, se, pelo menos, ela for ainda hoje o que era outrora, ou seja, uma 'ascese', um exercício de si, no pensamento”.

 (FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade. Vol 2. O uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Ed. Graal, 1984. p. 13).

Fiz uso da citação acima para mostrar o quanto a palavra “ensaio” está banalizada, bem como a Filosofia e demais áreas de saberes. Isso se deve ao fato de conspirarmos a favor de uma cultura da fragmentação que nos envolve a todos e que nos fez perder a noção de totalidade, de metafísica, de conjunto, de complexidade. Vivemos e, diga-se de passagem, gostamos do que é simplório e vulgar. Gostamos e aplaudimos as vulgaridades. Ostentamos um mundo de vulgaridades na linguagem, no estilo literário, na política, nos saberes. Vivemos, agora, exaltando as mais frívolas atitudes de simplificação do olhar. Os objetos de estudo são analisados periférica e superficialmente sem nenhuma dosagem sequer de Filosofia.

A atividade filosófica não pode ser, é claro, um jogo puramente exclusivo da profundidade e da obscuridade das ideias que não chegam ao público e que permanecem apenas dentro das academias como propriedade exclusiva dos “intelectuais”, todavia, a filosofia é uma reflexão sobre os saberes disponíveis, uma espécie de ensaio sobre a vida. Não sem convicção, Comte-Sponville despertou para o seguinte:
“Não podemos, sem filosofar, pensar nossa vida e viver nosso pensamento: já que isso é a própria filosofia” (COMTE-SPONVILLE, André. Apresentação da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 12).

O estilo de se escrever em forma de “ensaios” levou o filósofo renascentista Michel de Montaigne a píncaros altíssimos de análise da vida em diferentes aspectos. Ele captura particularidades variadas da sua realidade e de outros autores num tom incrivelmente reflexivo e individual que lhe é muito peculiar. O “Da Educação das crianças” que lhe coube um ensaio à parte. Diz ele:
“Tudo se submeterá ao exame da criança e nada se lhe enfiará na cabeça por simples autoridade e crédito. Que nenhum princípio, de Aristóteles, dos estóicos ou dos epicuristas, seja seu princípio. Apresentem-se-lhe todos em sua diversidade e que ele escolha se puder. E se não o puder fique na dúvida, pois só os loucos têm certeza absoluta em sua opinião”

(MONTAIGNE, M. Ensaios. São Paulo: Ed. Abril, 1972, p. 81-82).

Aqui, ele admite opiniões duvidosas na educação das crianças a fim de atingir a maturidade filosófica, até porque as crianças não são dotadas só de razão, mas de imaginação, de vida, de sentidos e etc. Não é só a ciência, tampouco a dialética, que constituem uma boa educação. A filosofia é um ensaio que extrapola toda e qualquer tentativa de sistematização do saber, por isso ser importante para a educação das crianças. Com o ensaio, admite-se e estimula a dúvida; desperta na criança o hábito da reflexão. Vejam mais o que Montaigne nos diz sobre “os meios e os fins”, “Da tristeza”, “Da covardia”, “Do medo”, “De como filosofar é aprender a morrer”, “a força da imaginação”, “De como julgar a morte”, enfim...

Os ensaios filosóficos ou literários são reflexões muito pessoais por cima, por baixo, por dentro e pelos lados da realidade. É levar o texto a suportar, ao máximo, a fragmentação e amplidão das opiniões, das ideias. São textos fragmentados, mas que não se diluem, nem se perdem no obscurantismo das ideias filosóficas, mas ganham toda uma consistência pelo conjunto da obra. 

O saudoso escritor e filósofo paraense Benedito Nunes, por exemplo, ganhou um prêmio pela Academia brasileira de Letras pelo conjunto da obra. Escreveu muitos ensaios filosóficos em sua vida. Reuniu todos e vejam o que deu, uma harmonia maravilhosa entre literatura e filosofia. Maravilhoso! O ensaio ganha consistência também porque é escrito, muitas vezes, por quem realmente conhece a vida e suas dificuldades.
O escrever do ensaísta é um escrever com autoridade de quem diz o que viveu. O reflexo de sua tinta é a sombra de sua vida, isso é muito importante num ensaio.


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Especialista em Metafísica, Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A mosca de Atenas ou Carnaval que passou


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva


Passados quatro dias rápidos de carnaval, em que muitos foram levados pela ventania do barulho do momento, a tendência agora será o despertar para outras realidades, como as chuvas de março e com elas as moscas, a política, o salário, a inflação e, talvez, a situação de trabalho de cada um de nós, pobres mortais. Passada a anestesia da folia, a realidade volta com toda a sua força ao dia a dia do brasileiro!

As chuvas são a marca do mês de março em nosso sertão; nuvens carregadas de água trazem do céu a esperança natural de boas colheitas para o humilde agricultor, bem como doenças de toda sorte para o povo do sertão. Também com as chuvas vêm as moscas para nos incomodar, chatear e aborrecer. Quem, em meio à umidade e ao calor, não se aborrece com as moscas? Aqui e ali estão pousando e hospedando seus excrementos, suas larvas em águas e alimentos. É preciso lavar bem e cobrir com muito cuidado os alimentos.

As moscas são muito frequentes nesta época do ano. Tão comuns que podemos encontrá-las em qualquer ambiente. Aparentemente inofensiva e inútil, ao contrário, a mosca pode causar diversos danos à saúde. Inseto asqueroso, de anatomia quase irreparável a olho nu, apresenta certas peculiaridades, dentre elas os olhos por toda a cabeça (formados por 3.000 lentes de seis lados); não veem muitos detalhes, mesmo vendo 360º graus, tudo está fora de foco; asas finas, batem 330 vezes por segundo (4 vezes mais do que o beija-flor) e o segundo par dessas asas influencia as manobras aéreas, e por serem finas e frágeis, ficam invisíveis durante o voo. As moscas são incrivelmente ágeis e importante para a natureza.

No entanto, a mosca é vista por quase todas as pessoas como um inseto nojento, perturbador e incômodo, principalmente nos momentos de um cochilo, de um bom sono, de uma sesta rápida. É o estraga prazer de todos quantos estão a saborear um caldo, uma sopa ou uma boa bebida. Dificilmente alguém não se sentiria incomodado ao ver cair uma mosca no seu copo ou na sua comida.

Raul foi maravilhosamente perspicaz e sagaz ao jogar com palavras cheias de ironia e sarcasmo, transparecendo uma indignação com a sociedade, com o poder, com a política.
O filósofo é como uma mosca; perturbadora, incômoda, abusada, chata, estraga prazer, enfim. Talvez por isso, a Filosofia, tenha ficado distante da grade curricular das escolas públicas por muitos anos, inclusive no regime ditatorial, período de perseguição aos direitos democráticos do cidadão. Não devia ser perigoso falar de direitos humanos, tampouco de direitos ao cidadão, da dignidade da pessoa humana. Porém, a mosca está de volta, a Filosofia está mais forte do que nunca. Jamais se produziu tanto nesta área.

Platão pintou a imagem de Sócrates como uma “mosca” na sociedade ateniense. Sócrates era uma espécie de perturbador da aristocracia ateniense, das autoridades em geral, dos que se diziam uma coisa e não eram. “A perturbação que causava, no entanto, não seria à toa. Segundo sua própria interpretação relatada por Platão, ele foi sendo tomado pelo espírito da 'mosca', de pousar em cada lugar de Atenas para importunar, e foi assim que conseguiu, finalmente, entender sua missão” (GHIRALDELLI, Paulo Jr. A Aventura da Filosofia. S. Paulo: Manole. 2010. p. 32). Acabou condenado à morte por não concordar com um governo corrupto, com base na venda de homens livres; e por ser acusado injustamente de corromper a juventude com ideias voltadas para a alma. Sócrates, como filósofo, sábio de Atenas e cosmopolita, jamais aceitava a ignorância e a corrupção política. Daí ser visto por Platão como a “mosca” de Atenas.

Voltando a Raul Seixas, a “mosca” quer dizer os insatisfeitos com a situação política que aí está. Os que corajosamente, como Sócrates, tiram a cortina, tiram o véu da mentira para encontrar a verdade. A “sopa” é a delícia do dinheiro público. A “sopa” quer dizer as regalias do poder, o despotismo, contratações sem necessidade, altas diárias, mordomias, nepotismo, troca de favores com cargos públicos, desvio de verbas, licitações escusas e assim por diante.

Nesse sentido, quem, tal como Raul, tal qual Sócrates, filósofo, quer ser uma “mosca”?