quinta-feira, 15 de março de 2012

De sujeitos e relações sociais.


O maior capital deste mundo: as palavras e o conteúdo delas. As
palavras são e formam conhecimentos que nos permitem manter, respeitar
e transformar este mundo
”. 
(Fabio Savatin)

            Avançamos muito na qualificação de nossas relações sociais
e interpessoais. Aprendemos, com muito esforço e dedicação, a nos
relacionar de forma mais democrática e mais dialógica, mas ainda
convivemos com práticas que tentam impedir que, de forma autêntica e
autônoma, as pessoas possam decidir, falar e viver a partir de suas
escolhas, de suas possibilidades de autodeterminação. Por isso mesmo,
ainda temos muito a aprender na perspectiva do respeito e consideração
de uns para com os outros, tendo em vista uma sociedade mais
democrática. Como sujeitos sociais, vamos fazendo parte do mundo,
pelas relações de autonomia e interdependência.

            O nosso maior capital social são as palavras. As palavras
expressam a nossa forma de ver, crer, encarar e viver a vida pessoal,
como também a vida comunitária. Como sempre expressam conceitos, as
palavras precisam de vigilância social para que não reforcem
preconceitos ou ideários que não colaboram com a qualidade da vida
social que queremos ou desejamos. Porque vivemos em permanente
conflito e tensão pela hegemonia das ideias, sempre corremos riscos
com as armadilhas da instrumentalização, como escreve Rosa Clara
Franzoi, em artigo Decidir com Liberdade (Rev. Missões, Ano XXXIX,
Jan/Fev 2012): “Hoje o ser humano é incrivelmente instrumentalizado. A
pessoa é usada e levada a agir com a cabeça dos outros. Na
instrumentalização a pessoa é vista como peça que se descarta quando
perde a utilidade. Se isto acontece com todos, as maiores vítimas são
os jovens”.

            A coerência entre o que falamos e vivemos é sempre o nosso
maior trunfo para sermos respeitados diante dos demais. Manter a
coerência é um dos maiores desafios da vida social, diante das
inúmeras situações que estão sempre a nos exigir posicionamentos, por
vezes em situações muito adversas. Por isso mesmo, quanto maior for a
nossa incidência na vida social, seja como líderes ou representantes
de categorias ou instituições ou como representantes eleitos, mais
seremos observados e cobrados pelo exercício da coerência. Aqueles ou
aquelas que não compreenderem esta condição terão muitas dificuldades
em exercer liderança.

            Para ser sujeito social precisamos de uma condição
essencial: a liberdade de comunicar. Por isso mesmo, a comunicação
precisa ser democratizada em todos os sentidos, meios e
possibilidades, sobretudo para aqueles e aquelas que não tem voz,
portanto, impedidos de falar. Não há razões para temer os que de forma
autêntica e autônoma, decidem falar e viver a partir de suas escolhas,
de suas possibilidades de autodeterminação.

            Todos nós, ao tornarmos nossos posicionamentos públicos,
assumimos o risco de sermos cobrados pela nossa coerência. Todos nós,
ao respeitarmos as ideias e ideários dos outros, estaremos colaborando
para a sua emancipação pessoal e social. Todos nós, ao
confrontarmo-nos com os diferentes pensamentos, estamos aperfeiçoando
a nossa condição de sujeito social. Cada um, a seu modo e a seu tempo,
deve ter a oportunidade de se dizer e, ao se dizer, ter a oportunidade
de viver de forma autêntica, autônoma e cidadã.

Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos,

quinta-feira, 1 de março de 2012

Escola, poder e democracia.


“Os homens constroem paredes demais
e pontes de menos” (D.Pire)

            A escola pública e democrática é hoje uma conquista institucionalizada, mas que, na prática, ainda está longe de ser realidade plenamente vivenciada na escola. A escolha democrática das direções escolares ainda não permitiu condições democráticas de organizar as escolas a partir de uma base curricular, das propostas pedagógicas, das metas e da organização do quadro dos professores (distribuição da carga horária e disciplinas).     
A escola, lugar de significativas e distintas aprendizagens, é também um grande laboratório de exercício de poder. Cotidianamente, através das relações interpessoais, ela administra as suas tensões internas, fortemente influenciadas pelo poder externo (dos governos e da comunidade). E, o professor, uma peça fundamental, nem sempre é considerado em sua dimensão de pessoa humana e de sujeito, portador de desejos, direitos e dignidade.

            Além de sua estrutura administrativa, a escola é um lugar onde se constroem vínculos. Estes vínculos determinam a qualidade das relações entre professores, funcionários, equipe diretiva, alunos e pais. A maior diferença da escola pública, em relação às demais, reside no fato de sua gestão ser pública e democrática. E é nesta que, para além de professores, cresce a exigência por educadores. “Todo professor deve ser um verdadeiro educador. Um mestre da vida e do saber. É mestre porque é homem de fé, que acredita em si e nos outros, que confia e ama seus discípulos” (Maximiliano Menegolla)

            Professores não são números. Professores são sujeitos, seres humanos, com suas opções pedagógicas e ideológicas. Aliás, o exercício de seu ofício não lhes permite neutralidade, pois a educação é, por natureza, um ato político. Suas práticas pedagógicas resultam de suas trajetórias pessoais, de seus compromissos com o ser humano e de seus conhecimentos e aperfeiçoamento profissional. 

            Algumas instituições de ensino público, por suas práticas contraditórias e autoritárias, minimizam o alcance e a importância das conquistas democráticas. É claro que exercitar cotidianamente a democracia, como se faz na escola, não é uma tarefa fácil. Por isso que, para muitos, ela não passa de “verborragia”. Para outros, incansável exercício, prática de inclusão e respeito a todos, mesmo enfrentando as contradições do discurso e da prática. 

            Alguns colegas, agora diretores ou diretoras, “constroem paredes demais e pontes de menos”. Usam do poder que lhes foi delegado para desconsiderar seus professores e ofuscar a democracia, por todos pretendida e proclamada.“O lugar onde o professor não é visto como pessoa, mas simplesmente como um profissional qualquer, deve ser chamado de pensionato, refeitório..., mas não chamem de escola, onde se educa e se ensina”.(Menegolla)
            O exercício do poder democrático é um dever da escola e um legado que ela deve deixar para seus alunos e para a sociedade como um todo; esta é sua contribuição para a consolidação da democracia no Brasil. Qualidade na educação será uma realidade quando tratarmos gente como gente deve ser tratada e quando tomarmos a democracia como a base de nossas relações.


Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos.