quinta-feira, 22 de março de 2012

Muito além do que somos


Armando Correa de Siqueira Neto*

Qual é o nosso verdadeiro tamanho em relação ao desenvolvimento humano? Será que somos potencialmente maiores e bem pouco se enxerga a respeito? Não ver o prêmio futuro pode causar desânimo e até oposição frente ao exigido e essencial exercício do crescimento que se tem no presente? Nada é de graça! O que pode nos levar a perceber tal possibilidade de avanço para que o estímulo resultante nos impulsione em direção a um nível evolutivo sem precedentes, superando as lentas passadas com as quais temos caminhado através da estrada da vida?

Para tratar sobre o processo evolutivo, é prudente lançar mão da teoria darwinista encontrada no livro “A origem das espécies”, a qual atribui ao tempo, o acaso e a seleção natural o resultado daquilo que hoje somos. A valiosa aptidão que se adquire faculta ao ser humano (e às outras espécies) a possibilidade de manter-se vivo e ainda transmitir tais informações à sua descendência. No entanto, esbarra-se em uma delicada e complexa questão: como foi possível ter-se dado a gênese de tudo que conhecemos sem se levar em conta um criador com a necessária capacidade de planejar e concretizar?

Alguns pontos permanecem obscuros sem a devida análise, tais como as capacidades de desenvolvimento preexistentes (semelhantes aos típicos softwares da informática): desenvolvimento do apego para o convívio; aquisição da linguagem; aprendizagem do saber e formação da inteligência; constituição do jeito ético de ser; eclosão das muitas consciências; noção e sentimento espiritual, por exemplo.

As discussões são travadas, infelizmente, em planos distintos e isolados, com rara chance de conciliação. Vê-se orgulho, teimosia, fanatismo e cegueira obstruírem o acesso ao merecido conhecimento. Tal sapiência é capaz, a propósito desta reflexão, de promover maior consciência e melhor desempenho na escalada rumo à maturidade pessoal que hoje é pobremente encontrada no convívio social.

Não obstante, é possível detectar algumas movimentações em prol de novas e interessantes perspectivas. Em 1993, o Professor Phillip Johnson, da Universidade da Califórnia, reuniu alguns estudiosos de diferentes áreas para que se debatesse o tão polêmico assunto. Dentre alguns aspectos lá refletidos, destacou-se que havia uma lacuna não preenchida por Charles Darwin. O fato é que, acerca da primeira vida primitiva, segundo o que se concluiu, não seria possível à seleção natural atuar antes da existência da primeira célula viva. A seleção natural só atua sobre organismos capazes de se reproduzirem. Então, o que causou, inteligentemente, o início da vida? A tal indagação, respondeu-se com o que se denominou de “Teoria do Design Inteligente”, condição anterior à existência. Assim, é possível atribuir, de modo mais equilibrado, à maneira de cada lado na ferrenha contenda, uma nova e mais justa explicação (ainda que temporária, pois sabemos muito pouco ainda a respeito de muita coisa) para a origem das espécies e sua evolução. Vale a pena, ainda, lembrar da afirmação de Darwin na qual não lhe parecia existir qualquer incompatibilidade entre a aceitação da teoria evolucionista e a crença em Deus. Será que há um esboço, ao menos, de harmonização entre as partes concorrentes?

Cabe, pois, ponderar exaustivamente acerca de tal proposta, repensando, portanto, o que somos verdadeiramente no aqui e agora, enquanto seres carecedores de considerável consciência e desenvolvimento. Mas cumpre-se salientar o gigantesco potencial a ser extraído através do necessário e pertinente exercício. Há muito mais dentro de nós do que se pode perceber, mas cabe a cada um se autoconhecer por meio da autoavaliação e tirar as próprias conclusões com o passar do tempo.


*Armando Correa de Siqueira Neto é psicólogo (CRP 06/69637), diretor da Self Consultoria, palestrante, professor e mestre em Liderança, coautor dos livros Gigantes da Motivação, Gigantes da Liderança e Educação.

quinta-feira, 15 de março de 2012

De sujeitos e relações sociais.


O maior capital deste mundo: as palavras e o conteúdo delas. As
palavras são e formam conhecimentos que nos permitem manter, respeitar
e transformar este mundo
”. 
(Fabio Savatin)

            Avançamos muito na qualificação de nossas relações sociais
e interpessoais. Aprendemos, com muito esforço e dedicação, a nos
relacionar de forma mais democrática e mais dialógica, mas ainda
convivemos com práticas que tentam impedir que, de forma autêntica e
autônoma, as pessoas possam decidir, falar e viver a partir de suas
escolhas, de suas possibilidades de autodeterminação. Por isso mesmo,
ainda temos muito a aprender na perspectiva do respeito e consideração
de uns para com os outros, tendo em vista uma sociedade mais
democrática. Como sujeitos sociais, vamos fazendo parte do mundo,
pelas relações de autonomia e interdependência.

            O nosso maior capital social são as palavras. As palavras
expressam a nossa forma de ver, crer, encarar e viver a vida pessoal,
como também a vida comunitária. Como sempre expressam conceitos, as
palavras precisam de vigilância social para que não reforcem
preconceitos ou ideários que não colaboram com a qualidade da vida
social que queremos ou desejamos. Porque vivemos em permanente
conflito e tensão pela hegemonia das ideias, sempre corremos riscos
com as armadilhas da instrumentalização, como escreve Rosa Clara
Franzoi, em artigo Decidir com Liberdade (Rev. Missões, Ano XXXIX,
Jan/Fev 2012): “Hoje o ser humano é incrivelmente instrumentalizado. A
pessoa é usada e levada a agir com a cabeça dos outros. Na
instrumentalização a pessoa é vista como peça que se descarta quando
perde a utilidade. Se isto acontece com todos, as maiores vítimas são
os jovens”.

            A coerência entre o que falamos e vivemos é sempre o nosso
maior trunfo para sermos respeitados diante dos demais. Manter a
coerência é um dos maiores desafios da vida social, diante das
inúmeras situações que estão sempre a nos exigir posicionamentos, por
vezes em situações muito adversas. Por isso mesmo, quanto maior for a
nossa incidência na vida social, seja como líderes ou representantes
de categorias ou instituições ou como representantes eleitos, mais
seremos observados e cobrados pelo exercício da coerência. Aqueles ou
aquelas que não compreenderem esta condição terão muitas dificuldades
em exercer liderança.

            Para ser sujeito social precisamos de uma condição
essencial: a liberdade de comunicar. Por isso mesmo, a comunicação
precisa ser democratizada em todos os sentidos, meios e
possibilidades, sobretudo para aqueles e aquelas que não tem voz,
portanto, impedidos de falar. Não há razões para temer os que de forma
autêntica e autônoma, decidem falar e viver a partir de suas escolhas,
de suas possibilidades de autodeterminação.

            Todos nós, ao tornarmos nossos posicionamentos públicos,
assumimos o risco de sermos cobrados pela nossa coerência. Todos nós,
ao respeitarmos as ideias e ideários dos outros, estaremos colaborando
para a sua emancipação pessoal e social. Todos nós, ao
confrontarmo-nos com os diferentes pensamentos, estamos aperfeiçoando
a nossa condição de sujeito social. Cada um, a seu modo e a seu tempo,
deve ter a oportunidade de se dizer e, ao se dizer, ter a oportunidade
de viver de forma autêntica, autônoma e cidadã.

Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos,