quinta-feira, 12 de julho de 2012

PENSAR NÃO É PUNIR



Sandra Lucia*

Interessante como dois verbos pensar e punir tem sentidos opostos e muitas vezes na prática tão próximos. Enquanto “pensar” significa raciocinar que é uma operação lógica discursiva e mental. Neste, o intelecto humano utiliza uma ou mais proposições, para concluir, através de mecanismos de comparações e abstrações, quais são os dados que levam às respostas verdadeiras, falsas ou prováveis. Das premissas chegamos a conclusões. “Punir” é punição, um processo no qual se reduz à probabilidade de determinada resposta voltar a ocorrer através da apresentação de um estímulo aversivo, ou a retirada de um estímulo positivo após a emissão de determinado comportamento indesejado. Observo como se destacam na prática cotidiana como paralelos no inconsciente dos grupos escolares quando o assunto é pensar a filosofia.

Peguei-me outro dia lendo um artigo em uma revista da Supernanny que é psicóloga e orienta os pais a forma de aplicarem disciplinas a seus filhos. Algumas orientações são do tipo como: não gritar; dar uma advertência; não perder o controle e colocar no “cantinho da disciplina” para pensar e refletir o que fez de errado. No final orienta os pais a conduzir a criança a pedir desculpas pelo mal cometido.  Bom até aqui parece que está tudo bem, mais algo me chama atenção. Como será a longo prazo a falta de diálogo entre familiares quando essa criança já não couber no banquinho e não ter o “cantinho da disciplina”, ou seja, a vida toda. Já dizia Sócrates “O conhecimento está dentro das pessoas (que são capazes de aprenderem por si mesmas). Porém, eu posso ajudar no nascimento deste conhecimento.”.

Penso que enquanto criança é mais fácil compreendê-lo a forma como pensam entrando no seu universo, seu mundo e nas suas dificuldades e partir para um diálogo sem reforçar essa noção de que pensar é ruim, imagino o quanto se culpam pelo fato de errar, sabendo que a prática o levará a um banquinho ou cantinho. Para quê?  Para pensar.

E quando já adolescentes alguns pela primeira vez tem contato com a filosofia outros não, ao descobrirem que podem pensar e refletir e que isso traz prazer. Prazer? Como? Eu vou ter que pensar? Muitos duvidam, sim duvidam, mas não como a arte do filosofar, mas sim em como sair do “cantinho da disciplina” ou “das correntes que ainda os prendem na caverna” Aos poucos descobrem o conhecimento dentro de si e se libertam ao perceber que é tudo muito simples e que a filosofia faz parte do dia a dia de cada um.

Concluindo essa teoria quero enfatizar que é possível desde criança a começar a refletir suas ações até porque a moral e a ética é trabalhada desde a primeira infância. Uma das grandes áreas da filosofia trabalha justamente essa questão da ética e da moral. Bom seria se fosse mais valorizado a filosofia no dia a dia dos pais, educadores e educando, proporcionado leituras e imagens para que os pequeninos vivenciassem de uma forma ampla, alegre e extrovertida a reflexão e a curiosidade até a fase adulta. Ao contrário que observo, muitas vezes existe uma espécie de parede entre a busca do conhecimento e o limite em ultrapassar essa busca do “conhecer” e expor suas ideias. A inibição da infância, aquela do “cantinho da disciplina” em que se falava o que deveria falar para sair logo para brincar, se repita agora como ler por ler, estudar por estudar, terminar logo para não ter de refletir. Se o diálogo substituir a punição é possível que tenha continuidade dessa prática como um bem para todos.


*Professora de Filosofia e Sociologia na rede pública e pós graduanda em Metodologia do Ensino em Filosofia e Sociologia pelo Centro Universitário Leonardo da Vinci

quinta-feira, 5 de julho de 2012

De democracia e de outonos



Nei Alberto Pies
“Meu ideal político é a democracia, para que todo homem
seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado” (Albert Einstein)
           
Viveremos, nos próximos meses, momentos singulares para revisar a nossa cidadania a partir do lugar onde moramos: as nossas cidades. A coincidência dos outonos com os períodos pré-eleitorais potencializa as nossas ações cidadãs e nos convida a estarmos espertos neste período de anúncios e prenúncios. Os outonos forram o nosso chão de folhas deixando as árvores dormentes. Os outonos anunciam a chegada do frio que nos deixa menos mobilizados e atuantes fisicamente, mas não acomodam nossas consciências. Pelo contrário, este é um período em que nossas consciências devem estar despertadas para compreendermos as manhas e as artimanhas da nossa política.
            Prestemos atenção aos rituais, aos comportamentos, aos discursos, às estratégias dos candidatos. Revisemos a sua vida pessoal e comunitária para perceber se guardam coerência e consistência em seus propósitos. Vivamos este tempo como um tempo de graça para aperfeiçoarmos a nossa cidadania e nosso poder de decidir os rumos que desejamos para as nossas cidades.
            A disputa eleitoral que se aproxima é antecipadamente marcada por disputas, promessas, jogos e seduções de muitos e difusos interesses, jogados nos bastidores. Estes interesses são calorosamente alinhavados para que possam traduzir-se em propostas concretas para melhorar a qualidade de vida em nossas cidades. A aparente acomodação do outono contrasta com os intensos movimentos que geram os debates, as reuniões, os acordos que geralmente se operam na “calada das noites”. Ao fim e a cabo, anunciam-se os protagonistas que representam este ou aquele projeto político: os candidatos a prefeito, vice-prefeito e a suas nominatas de candidatos a vereadores.
Embora seja sagrado o nosso direito de votar, as eleições não esgotam a democracia, mas são um momento mais intenso de debate dos rumos de nossa cidadania. A verdadeira democracia se concretiza a partir do protagonismo cidadão e da participação da sociedade na proposição, encaminhamento e cobrança de políticas públicas. Por isso mesmo democracia é uma forma de convivência que exige que superemos a “alienação dos sujeitos”. As pessoas envolvidas e interessadas nas políticas devem participar das decisões, em diferentes níveis e situações. A separação entre aqueles que decidem e executam e os beneficiários, além de possibilitar manobras, gera desinteresse por conviver em grupo e em sociedade.
            As contradições da democracia não param por aí e exigem ainda que incluamos a todos, em sua condição de cidadãos e sujeitos de direitos. A verdadeira democracia não tolera a existência de excluídos. A fome, a miséria e a discriminação dos mais pobres, além de agredir e negar a dignidade humana, “abortam” a cidadania. Em tempos eleitorais, estes são os alvos mais fáceis de manipulação e enganação. Em tempos outros, quem aborta a cidadania de muitos é a burocracia. Mas este já é tema para uma reflexão.

*professor e ativista de direitos humanos