quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Quais respostas dependem da educação


"Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda."
(Paulo Freire)

            Os novos gestores municipais herdaram grandes desafios para seus mandatos, especialmente para a educação básica. Na condição de professor de uma rede municipal e rede estadual de ensino, ousamos “palpitar” sobre aspectos que consideramos fundamentais para alavancar uma educação de qualidade. Os desafios para uma boa gestão em educação precisam dar conta de aspectos estruturais, funcionais e pedagógicos.

Muito se fala e se discute a respeito do papel da educação no desenvolvimento cultural e econômico de uma nação. Se é verdade que a “educação precisa de respostas”, tão verdadeiro é que as mudanças que esperamos a partir da educação não se farão sozinhas. Mudanças de postura, comportamento, inovação e criatividade virão quando forem acompanhadas de outras políticas públicas capazes de elevar a condição social de nossa gente e das condições objetivas para fazermos uma educação de qualidade. Neste sentido, não podemos afirmar de que “tudo passa pela educação”, embora, sem ela, nenhuma mudança terá condições de acontecer.

A criatividade, a inovação e a ousadia sempre foram bases para os grandes avanços da humanidade. Mas antes os gestores precisam conhecer e reconhecer a realidade de sua rede municipal de ensino, as expectativas da comunidade e os “pensamentos” que movem os seus professores. Após este reconhecimento, devem traçar metas e “marcas” que desejam imprimir na sua gestão. As marcas gerarão a identidade do trabalho político e pedagógico de cada rede de ensino.

Os aspectos estruturais envolvem o cuidado, a preservação e o “embelezamento físico” dos prédios e salas de aula. Os ambientes escolares precisam uma boa pintura, uma boa organização e distribuição de espaços, um ambiente agradável e aconchegante, um mobiliário bom e adequado. Nossos estudantes merecem e precisam sentir-se bem, e bem acomodados, para o pleno envolvimento com as aprendizagens. Os aspectos funcionais referem-se ao bom e respeitoso tratamento que será dispensado aos funcionários e professores das escolas. O trabalho árduo e cotidiano dos professores precisa ser reconhecido em sua dignidade humana e profissional. Os aspectos pedagógicos, tão importantes quanto os demais, devem levar em conta a experiência acumulada de cada educandário e de cada professor e professora, apresentando aos mesmos novos desafios para dinamizar as aprendizagens. A formação continuada dos professores precisa ser combinada e dialogada, antes de ser executada, para que ocorra verdadeiro envolvimento. Deve, ainda, produzir a sistematização e discussão das práticas pedagógicas. Esta poderá sim produzir novas posturas e compreensões para intervenção em sala de aula.
 
As respostas que dependem da educação nunca estarão plenamente definidas. O que sabemos é que uma educação que leva em conta os desejos da comunidade, dos professores e dos alunos corre sério risco de colaborar com habilidades, atitudes e conhecimentos que farão diferença para o futuro do Brasil. Ademais, nossa educação precisa colaborar para o exercício e a prática da cidadania, esta sim, capaz de operar as grandes mudanças de que o nosso país precisa. Nossas escolas devem ser “o primeiro e maior lugar de vivência de direitos”. Os gestores municipais que entenderem isto farão uma grande diferença na educação brasileira.


Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O VALIOSO EXERCÍCIO DO DIÁLOGO


Prof. Jackislandy

Embalados pela experiência cortante do fim: o encerramento do calendário Maia para o dia vinte e um de dezembro deste ano como expectativa de final dos tempos; o Natal que nos lança culturalmente para dentro da mensagem transformadora de Jesus, segundo a qual é preciso morrer para viver; e agora a possibilidade de atravessarmos a linha cada vez mais tênue que divide um ano do outro; em meio a isso, temos a impressão de que muita coisa ainda está por dizer, muita coisa precisa ser discutida e digerida com incansável diálogo.

Ano após ano, a cada experiência de metamorfose, para não dizer revolução, somos como que balançados pelo encontro com o diferente, pelo diálogo com o outro. Os macedônios, vistos como bárbaros por não falar o grego, estavam fora do mundo civilizado até a subida de Felipe II ao poder, e depois pelo vasto Império de seu filho Alexandre que diluiu a famosa separação que existia entre gregos e bárbaros. A partir daí, o mundo começa a se globalizar e a tomar outra forma, onde o diálogo passa a ser fundamental para o desaparecimento das fronteiras étnicas. E isso se deve, obviamente, à política e à filosofia tão próprias ao mundo grego. 

Por elas, o diálogo ganha corpo e se torna uma alternativa eficaz para cessar as guerras e introduzir no mundo a paz. Com o diálogo, temos a certeza de que não precisamos nos matar para resolver nossos problemas, diferenças ou adversidades. Somente o diálogo nos permite saber até onde podemos recuar ou avançar na relação de negociação com outros povos, culturas e etnias. 

A Grécia mudou muito em contato cultural com o Oriente durante anos, herdando o alfabeto e outros modos de viver, o que dizer então da chegada da filosofia, quando alguns conversadores apareceram em algum lugar às margens do Mar Mediterrâneo. 

"Uns quinhentos anos antes da era cristã aconteceu na Magna Grécia a melhor coisa registrada na história universal: a descoberta do diálogo. A fé, a certeza, os dogmas, os anátemas, as preces, as proibições, as ordens, os tabus, as tiranias, as guerras e as glórias assediavam o orbe; alguns gregos contraíram, nunca sabemos como, o singular costume de conversar. Duvidaram, persuadiram, discordaram, mudaram de opinião, adiaram. Quiçá foram ajudados por sua mitologia, que era, como o shinto, um conjunto de fábulas imprecisas e de cosmogonias variáveis. Essas dispersas conjecturas foram a primeira raiz do que hoje chamamos, não sem pompa, de metafísica. Sem esses poucos gregos conversadores, a cultura ocidental é inconcebível"
(BORGES, J. L. Sobre a filosofia e outros diálogos. Trad. John Lionel. SP: Hedra, 1985, p. 27).

Veja quanto o diálogo é importante! O diálogo com outras culturas cria um intercâmbio de troca de informações que esfria os rumores da violência, da ira e da vingança; destrói preconceitos; cessam os medos; prospera a paz; humaniza as relações e o mundo fica mais civilizado. O que um documento de pedra das longínquas comunidades maias, ramificadas em países das Américas do Norte e Central, foi capaz de fazer ultimamente, gerando um clima de repercussão internacional de que o mundo finalmente ia acabar, é a prova mais sensacional daquilo que o diálogo pode proporcionar, sobretudo hoje no mundo informatizado e globalizado. A sensação de fim do mundo tomou conta de todos pelo simples fato de termos acesso à cultura e aos materiais de estudos daquele povo.

Numa sociedade caolha como a nossa, para não dizer cega, de ações públicas impostas sem diálogo com o povo, em que impera a égide da tecnologia e da informação acelerada em massa, dificilmente encontramos espaços para o valioso exercício do diálogo. Valores individuais e mesquinhos também nos impedem de praticar esta atividade tão importante para o aprendizado. Depois que Platão inventou o diálogo, de lá para cá, passando por Jesus Cristo, o diálogo tem sido a forma mais autêntica de nos aproximarmos uns dos outros e de nos libertarmos da ignorância, além de nos abrirmos para a promoção da paz.

Platão ajudou a educar a Grécia pelo diálogo, Jesus salvou muita gente em Israel também pelo diálogo.

Contudo, são nesses momentos de confraternização natalina e ano novo que, a cada ano, temos a oportunidade graciosa de nos encontrarmos uns com os outros para retomarmos a experiência única e maravilhosa do diálogo. Portanto, nesses dias de reunião familiar, não economize tempo para conversar, tampouco palavras para expressar o que pensa e o que sente em relação a tudo.

Bons diálogos e um excelente ano a todos!


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia, Bel. em Teologia, 
Esp. em Metafísica e Pós-graduando em 
Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco.