quinta-feira, 16 de maio de 2013

Crianças espiritualizadas
Prof. Nei Alberto Pies

Somos nós que fazemos a vida/ Como der, ou puder, ou quiser.../
E a pergunta roda/ E a cabeça agita/
Eu fico com a pureza da resposta das crianças/
É a vida, é bonita/ E é bonita...(Gonzaguinha)

A família e a escola foram constituídas, historicamente, alicerces da formação humana. Delas se espera que construam ferramentas que permitam aos indivíduos, de um lado, inserir-se socialmente e, de outro, realizarem-se como seres desejantes, física, moral e espiritualmente. Neste sentido, é imprescindível a espiritualidade, tomada como “unidade sagrada do ser humano (...), convivência dinâmica de matéria e de espírito entrelaçados e inter-retro-conectados”.(Leonardo Boff)
Nas aulas de ensino religioso, para além do conhecimento de diferentes credos e crenças, buscamos estimular opções de vida e comportamento que tragam sentido de vida às crianças e adolescentes. Ensinar sentido de vida pressupõe processos educativos que implicam na autonomia, na responsabilização das ações na medida das forças de cada um, na vivência da liberdade, na abertura do eu para com o outro.
As crianças produzem as mais puras obras da sensibilidade humana e nos orgulham com seus ingênuos e inocentes encantos. Na infância e adolescência, os sentimentos são mais efervescentes, por isto a necessidade de educar em e para os sentimentos.
Educar para os sentimentos não significa trabalhar conceitos abstratos e acabados, mas exercer perene e permanente escuta para que, ao dizer seus sentimentos, as crianças e adolescentes possam construir e re-construir seus próprios conceitos. E para que, ao interagir com os demais, possam enriquecer as suas idéias, alargando os horizontes de sua compreensão sobre si mesmo, sobre o mundo e sobre os outros. Afinal, “educar é ajudar a ser, nascendo aos poucos para a luz; é fazer passar do seio materno da natureza em dependência e ignorância para o reino da verdade e da liberdade, que é o reino do espírito. Educar é possibilitar o nascimento do ser.... Dá-se à luz não para deter, mas para que o outro possa ser; isto é, para que possa percorrer seu próprio caminho e construir o seu próprio lugar no mundo” (Moreno, Ciriaco Izquierdo, Educar em valores, Paulinas 2001).
É difícil, senão impossível, educar os outros sem educar-se primeiro. Não basta um bom método, é preciso também ter fé na vida, amor e sensibilidade para escutar. Atentos e vigilantes, abramos nossos olhos para ver, nossos ouvidos para ouvir e nossa boca para falar, serenamente. Pois quando reina na gente a insensibilidade, esta gera auto-suficiência, arrogância e rancor, qualidades que não cativam e não agregam ninguém.
Ao apreendermos e compreendermos o universo infanto-juvenil, podemos impulsionar novas e renovadas percepções de vida, de ser humano e de beleza. No filme Tesouros da Neve (produzido por Nigel Cooke, LPC Produções), a partir de um desentendimento entre três crianças: Lucyen, Annete e Denny. O perdão é abordado sob a forma de um drama humano, de difícil aprendizado, mas necessário para quem quer seguir vivendo. Demonstra, ainda, a necessidade da compreensão e apoio, para quem está arrependido e quer se reparar com os outros. A consciência humana cobra permanentemente pelos eventuais erros cometidos: “quando fazemos algo errado, recebemos o castigo sem ninguém interferir”.
Esta extraordinária história do filme nos ajuda a compreender pequenos grandes dramas juvenis que necessitam de nossa atenção e apoio, na condição de pais, mães, avós ou avôs ou educadores/as. Crianças e adolescentes vivem os seus dramas; esperam nossa compreensão e nossa luz para que possam se assumir sujeitos de suas histórias. Crianças espiritualizadas são aquelas que conseguem compreender seus dramas e os dramas do mundo, apontando soluções para superá-los.

Prof. Nei Alberto Pies, Ativista de direitos humanos.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Medicina Filosófica
Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
        
         Não é incomum ouvirmos queixas do tipo: “Isso é tão caro!”. Sobretudo, quando vamos ao mercado, às lojas ou quando planejamos alguma viagem. Já disse por aqui, muitas vezes, que quase tudo nesse país esbarra em dinheiro, principalmente para aqueles que mais carecem dele; trabalhadores assalariados e os menos favorecidos socialmente.
         A bem da verdade, é que volta e meia somos flagrados, até involuntariamente, a certos sobressaltos de admiração pelo alto custo das coisas. Porém, a muitos que andam tão indignados com a inflação, é bom que se faça a seguinte reflexão: Se você tivesse que deixar oitocentos reais ou mais do seu orçamento mensal numa farmácia para manter-se vivo? Certamente, a situação seria outra e as queixas não se repetiriam tanto. Pensando bem, antes de levantar qualquer indignação nesse sentido, parece ser mais razoável agradecer. O ato de agradecer também nos deixa mais resistentes, muito embora não concorde com toda esta exploração financeira do mercado.
         O que pretendemos com essa simples demonstração de humanidade? De imediato, tirarmos nosso foco existencial da economia, do capitalismo e da baboseira de que sem dinheiro não somos nada. Não somos nada sem saúde. Este é o ponto de nosso interesse aqui. Com o país em situação econômica estável, pelo menos até agora, a indústria farmacêutica tende a acelerar-se cada vez mais, enriquecendo, em função da prática de uma medicina paliativa e não preventiva, tampouco educativa e filosófica. Contudo, tal prática vem mudando com a orientação médica de caminhadas, exercícios físicos, regimes, dietas, práticas de higiene e o cuidado com o corpo.
         A medicina antiga, dos tempos de Hipócrates, era extremamente preventiva, ética e, por isso, filosófica. Estamos falando da segunda metade do séc. V a.C. e das primeiras décadas do séc. IV a.C., o mundo era outro, a cultura também, os valores eram diferentes, mas o corpo era o mesmo. Afinal, a medicina sempre operou sobre ele. Hipócrates era contemporâneo de Sócrates, Platão e Aristóteles que o consideraram como o grande médico.
         Da mesma linha ascendente a que se remetiam os médicos no passado, Hipócrates herdou um ofício divinizado de Esculápio, o primeiro a ser chamado de “médico” ou “salvador” por ter aprendido do centauro Quíron a arte de curar os males. Com Hipócrates, a medicina alcança o status de ciência e passa a compreender as doenças como causas naturais do homem. Assim como Sócrates na Filosofia, Hipócrates com a medicina desenvolve toda uma observação racional acerca do ser humano, seu corpo e alma. O “conhece-te a si mesmo” e o “meden agan”, isto é, o nada em excesso, vão nortear os princípios sábios da medicina hipocrática.
         Curiosamente, os regimes, dietas, reeducação alimentar, passeios, atividades físicas, higiene e tudo a que nos submetemos hoje para preservarmos uma boa saúde era observado com precisão e justa “medida” por Hipócrates no IV livro das Epidemias: “os exercícios (ponoi), os alimentos (sitia), as bebidas (pota), os sonos (hupnoi), as relações sexuais (aphrodisia) – todas sendo coisas que devem ser 'medidas'. A reflexão dietética desenvolveu essa enumeração. Dentre os exercícios distingue-se  aqueles que são naturais (andar, passear), e aqueles que são violentos (a corrida, a luta); fixa-se quais são os que convém praticar, e com que intensidade, em função da hora do dia, do momento do ano, da idade do sujeito e da sua alimentação. Aos exercícios são relacionados os banhos, mais ou menos quentes, e que também dependem da estação, da idade, das atividades e das refeições que foram feitas ou que ainda se vai fazer. O regime alimentar – comida e bebida – deve levar em conta a natureza e a quantidade do que se absorve, o estado geral do corpo, o clima, as atividades que se exercem...”(In FOUCAULT, M. História da Sexualidade: o uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1998, p. 93).
            Interessante notar como a medicina, na aurora da Filosofia, exercia um papel de formidável educação das pessoas, na medida em que ela levava a pensar a conduta humana; a maneira pela qual se conduzia a própria existência, despertando um comportamento em função de uma natureza, de modo que o homem compreendesse sua “physiologia”, a fim de saber preservá-la e conformar-se a ela. A dietética hipocrática se constituía, para os antigos, uma arte de viver.
            As práticas de cuidado com o corpo de Hipócrates eram tão presentes no modo de vida, no cotidiano das pessoas da antiguidade que influenciaram fortemente a Filosofia em seu nascimento, tanto é que Platão faz ressalvas, em seus diálogos, aos excessivos exercícios e dietas que visam apenas à longevidade, e não a uma vida útil e feliz. Relatos de Xenofonte, nas Memoráveis, traz Sócrates orientando seus discípulos para serem “capazes de se bastarem a si próprios”(IV, 7); “Que cada um se observe a si próprio e anote que comida, que bebida, que exercício lhe convêm e de que maneira usá-los a fim de conservar a mais perfeita saúde”(idem). Portanto, o mestre Sócrates ensina a ter autonomia para com sua saúde: “Se vos observardes desse modo, dificilmente encontrareis um médico que possa discernir melhor do que vós próprios o que é favorável à vossa saúde”(idem).