quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Estupidez inglória!


Nei Alberto Pies
“A vida não é qualquer coisa mas é sempre, simplesmente,
a ocasião para qualquer coisa” (Viktor Frankl)

Faz bom tempo que a criminalização daqueles e daquelas que lutam por melhores condições de dignidade humana vem sendo denunciada. Mas parece que esta violência, como outras tantas, repete-se. Alguns até passam a aceitá-la como compatível aos padrões de convivência social. O Estado, instituído como guardião dos direitos, é o primeiro que os viola quando reprime violentamente aqueles e aquelas que se organizam pacificamente para buscar educação, terra, trabalho, saúde, segurança, lazer... Estaríamos desaprendendo democracia? Sem liberdade de expressão e de organização, que democracia estará sendo construída?
A ordem, associada ao progresso, parece mover novamente o imaginário daqueles que veem a democracia no ideal, no abstrato, difícil de ser construída. Nem todos estão convencidos de que a democracia pode ser desordem, uma vez que “não existe democracia sem caos, confusão, entropia. A democracia é o sistema do dissenso. Na verdade, a democracia é um equilíbrio instável de ordem e desordem. Em alguns momentos, a desordem é mais importante do que a ordem. Tudo, claro, depende do grau de ordem e desordem” (Juremir Machado daSilva).
A criminalização é a face perversa do Estado e da sociedade que não permitem que a cidadania exerça a condição de sujeito de direitos. Quem luta por seus direitos, e pelos direitos dos outros, é facilmente taxado de criminoso, acusado e condenado sumariamente. Os estigmas e preconceitos sociais atribuídos àqueles que lutam provocam impactos negativos para o exercício da condição de seres humanos, cidadãos e seres de vida social. Assis da Costa Oliveira define a criminalização dos movimentos sociais como sendo: “uma ideologia que possibilita um conjunto de práticas de cunho repressivo, repulsivo e/ou permissivo, com conseqüências físicas, mentais e sociais para o movimento e para as pessoas nele contidas”. Existirá agressão maior do que esta? Não importa se maior ou menor, sempre agressão!
Os consensos é que constituem a ordem democrática, muito antes das leis e das imposições arbitrárias. Mas, como perderam-se as causas, sobraram os interesses. Poucas causas sociais e humanitárias são capazes de mover e agregar, daí a dificuldade de construir consensos e acordos. Os interesses, pessoais, econômicos e corporativos, sucumbem as possibilidades de pôr as estruturas de organização econômica, social e política a favor da dignidade humana.
A democracia nasceu das palavras, da retórica e da persuasão. Com as palavras em descrédito, sobraram atitudes típicas da pré-história. Valeria assistir ao filme “A guerra do Fogo” para dar-se conta da estupidez inglória. Como escreve Marcos Rolim, “a democracia que temos já não tem política. Nela, o futuro se ausentou porque as palavras não autorizam expectativas. Será preciso reinventá-la, entretanto, antes de desesperar. Porque o desespero é só silêncio e o melhor do humano é a palavra”.



Nei Alberto Pies, professor e ativista em direitos humanos

 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Dois caminhos e um só destino


Armando Correa de Siqueira Neto*

A natureza nos favoreceu com várias informações genéticas; destacam-se duas: sobrevivência e adaptação ao custo do egoísmo e convivência altruísta. A primeira já se evidenciou mais claramente desde os estudos evolucionários de Charles Darwin. A segunda, contudo, começa a despontar recentemente através dos trabalhos realizados na Universidade Harvard, pelas mãos do biólogo evolucionário Marc Hauser, cuja publicação recebeu o nome de “Mentes Morais” – o cérebro possui um mecanismo geneticamente determinado para adquirir regras morais. Portanto, estamos diante de dois extremos severos que geram conflito em grossa parte do tempo de incontável número de pessoas. Por que coexistem dentro de nós duas informações de peso que se chocam tão intensamente, podendo causar, em última análise, alguns distúrbios mentais. Um desatino desnecessário aparentemente.
Para que o ser humano pudesse sobreviver constou-se em seu DNA o vale-tudo da sobrevivência e do aperfeiçoamento, levando-o a se modificar e alcançar aptidão necessária à seleção natural. Do contrário, ele (e qualquer projeto de descendência) já se encontraria extinto. Por sorte, a inteligente e instintiva informação genética é superior à nossa capacidade de raciocinar, sobrepondo-se à ingenuidade e passividade que inevitavelmente já teriam nos apagado do livro da vida. Há algo grandioso e imperceptível nesta sábia arquitetura, não acha? Mesmo Darwin concordou à sua maneira, ao descrever: “Não me parece haver qualquer incompatibilidade entre a aceitação da teoria evolucionista e a crença em Deus.”
Por outro lado, a programação genética que deve facilitar a aquisição e a aceitação psicológica das regras para o adequado convívio social e o consequente desenvolvimento do altruísmo, incide sobre o lado sobrevivência-a-qualquer-custo (e vice-versa), controlando parte da sua potência, a princípio perigosa caso nada lhe detenha, sem, no entanto, lhe enfraquecer em demasia naquilo para o que foi previamente determinada. Novamente nos deparamos com a providencial sabedoria invisível, não é? Sem esse sentimento de preocupação alheia (ainda que lhe falte aperfeiçoamento na transição ego-mundo) também já teríamos nos extinguido.
Então, faltam-nos consciência e ajuste à frente, pois se trata de uma enorme jornada acerca do desenvolvimento humano. Por tal razão, dispomos das essenciais informações genéticas que tanto nos estimulam ao movimento, ora conflitante, ora evolutivo. Dois caminhos e um só destino. Sobrevivência e altruísmo opondo-se, regulando-se e, finalmente, gerando o terceiro e vital elemento: a evolução.


*Armando Correa de Siqueira Neto é psicólogo (CRP 06/69637), diretor da Self Consultoria em Gestão de Pessoas, palestrante, professor e mestre em Liderança pela Unisa Business School. Coautor dos livros Gigantes da Motivação, Gigantes da Liderança e Educação 2006. E-mail: selfcursos@uol.com.br