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quinta-feira, 6 de maio de 2010

A invenção da verdade denunciada por Nietzsche

Autor: Matheus Arcaro
(fonte no final do texto)

Verdade! A musa a ser conquistada pela Ciência, pela Filosofia e, porque não por nós, pessoas comuns que no dia a dia tomamos-na como parâmetro para as nossas decisões, para rumar o nosso pensamento.

Mas, a verdade é real? É engendrada? Como ela nasce, afinal?

Questões como estas impulsionaram o jovem Nietzsche em sua pesquisa que culminou no breve, porém rico ensaio intitulado “Sobre a mentira e a verdade no sentido extra-moral”.

Antes, contudo, de analisarmos esse problema cabe uma breve contextualização de sua filosofia: Nietzsche é um pensador de combates. Suas obras são grandes máquinas de guerra prontas a destruírem o edifício lógico-moral, sustentado pelo platonismo e sua vertente ordinária, o cristianismo. Sua obra é escrita com “sangue e máximas”, marcadamente assistemática. A primeira grande “contradoutrina” de Nietzsche surge na pretensão de se opor à “metafísica racional” e instaurar a “metafísica do artista” que concebe a Arte como a atividade libertadora do homem; apenas a arte possibilita uma experiência da vida em sua plenitude. A Arte é o outro lado, um solo “extra”, “para além” da tradição filosófica e suas facetas lógicas e morais. Afirma Nietzsche: “A arte é a única força superior contraposta a toda vontade de negação da vida”.
Com estas curtas pinceladas, podemos partir para o problema da verdade.
Nietzsche começa afirmando que o intelecto humano é totalmente sem finalidade e gratuito perante o todo, frente à natureza. “Se pudéssemos entender-nos com a mosca, perceberíamos que ela sente em si o centro voante deste mundo”. Acreditamos que, por nosso intelecto, somos seres superiores. Mas ele é apenas um meio de conservação do homem, ser mais fraco, menos robusto, ao qual que está vedada a luta pela existência com chifres ou presas. O indivíduo, para conservar-se, para existir socialmente, precisa usar o intelecto. Precisa de um acordo de paz para que a “guerra de todos contra todos” desapareça de seu mundo. Esse pacto é o primeiro passo para o impulso à verdade, que nada mais é do que um tratado de paz. Concebendo a verdade como possibilitadora da vida social, Nietzsche chega a um primeiro contraste entre verdade e mentira: o mentiroso usa as designações válidas, as palavras para fazer aparecer o não-efetivo como efetivo; ele diz, por exemplo: ‘sou rico’, quando para seu estado seria precisamente ‘pobre’ a designação correta.

O que caracteriza ainda mais a verdade como uma criação puramente humana são as conseqüências advindas tanto da verdade como da mentira. O que o homem odeia é ser prejudicado tanto por uma, quanto por outra. Se o resultado da mentira é benéfico, então a verdade, em oposição, não é desejada e, até mesmo, repelida.

Central no texto “sobre a mentira e a verdade no sentido extra-moral” é a contraposição entre Metáfora e Conceito. Conceito, segundo a tradição, é o que define a substância. É ele que possibilita a descrição, a classificação e a previsão dos objetos cognoscíveis. O conceito, de modo geral, é a essência necessária, pela qual não pode ser de modo diferente. Para Nietzsche, a metáfora é a imagem do próprio mundo. Conceituar é congelar; é reduzir as muitas possibilidades a um único significado. Por um ato arbitrário de persuasão, ou seja, pela linguagem, introduz-se uma das muitas possibilidades da “metaforicidade” do mundo. Por trás disso, está a vontade de conservação, ordenação e pacificação, que não são naturais do mundo.

“Todo conceito nasce da igualação do não igual. Uma folha nunca é igual outra folha e, no entanto, o conceito de folha abandona arbitrariamente essas diferenças, essas individualidades e desperta a representação da folha, uma espécie de folha primordial, segundo a qual todas as folhas são tecidas.
Dividimos as coisas por gêneros, designamos a árvore como feminina e o vegetal como masculino. Que transposições arbitrárias! Que preferências unilaterais ora por esta, ora por aquela propriedade do objeto.”

A verdade nada mais é do que um batalhão de metáforas, metonímias, antropomorfismos que, após um longo uso, parecem sólidas, canônicas, obrigatórias. As verdades são ilusões, são conceitos que se esqueceram da sua origem metafórica.


O homem, falando a verdade, mente da maneira designada, inconscientemente e segundo hábitos seculares. Justamente por esse esquecimento, chega ao sentimento de verdade.
Quem está contaminado pela frieza dos conceitos, dificilmente acreditará que até o conceito aparentemente mais verdadeiro, como ósseo, por exemplo, não passa de um resíduo metafórico.
Eis a imagem: a verdade é como alguém que encontra um tesouro atrás de um arbusto. Tesouro este que ele mesmo escondeu. Defino o camelo como animal mamífero e, depois de inspecionar um camelo declaro: Vejam, um animal mamífero! Informação antropomórfica sem um único resquício de verdade!

Criticando a verdade, Nietzsche nos mostra a decadência de uma sociedade cientificista. Esta confiança ignorante nos preceitos e valores científicos constitui-se na negação do que o homem possui de mais humano. E, por negar sua humanidade, Nietzsche diagnostica o homem moderno como doente, propondo a arte como um medicamento capaz de levar a cura.

Fonte: http://oqueinspira.blogspot.com
Publicado e divulgado sob autorização do autor.

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quinta-feira, 25 de março de 2010

O homem, a felicidade e o mundo moderno

Na filosofia tem uma corrente muito bonita sendo ligada ao pensamento cristão o homem considerado um mistério, apesar de certo irracionalista, esse conceito ainda é o que melhor se presta para explicar a realidade humana e o que mais nos aproxima da compreensão da utopia de uma sociedade melhor. O homem não é um problema, é um mistério, porque problema é algo que posso decifrar com a minha inteligência. O homem sempre fez isso: descobrir respostas para os problemas que desafiam sua inteligência e, como diria Aristóteles, lhe causam espanto, basta que se esforce um pouco. Mas o homem continua um mistério, algo que consegue penetrar com a inteligência, pelos métodos, pelos caminhos habituais da ciência. Podemos conviver anos e anos com uma pessoa, e não conhecermos realmente ela, do nada nos surpreende com um gesto inesperado. Não podemos conhecer o homem então? Um livro ficou famoso com este titulo: o homem, esse desconhecido. Mistério, não é algo, que a inteligência não pode conhecer, e é muito usado na linguagem religiosa. Se aceita a revelação, como critério de conhecimento. Homem também é um mistério, para ser conhecido precisa revelar-se. A sociedade em que vivemos inibe e até proíbe revelação de seus mistérios, assim, nossos vínculos são perfunctórios, dão-se pelo exterior do que somos não contribuem para fazer nascer entre nos laços de comunicação profunda. A sociedade moderna produz indivíduos e separa pessoas, tornando muito difícil a realização do projeto iluminista de felicidade. Sem comunhão real, a pessoa continuará sendo a personagem do teatro clássico, a voz do personagem oculto do que somos nós. E se isso é assim, o que nos impede afinal, de o conseguirmos? Prosseguindo no exame da idéia de felicidade como um direito, o cônego machadiano, de “prebenda inteira”, via, no “amor da gloria temporal” a “perdição das almas”, enquanto que o militar, no mesmo lugar da glória, “a coisa mais verdadeiramente humana que há no homem”. O homem moderno ama o mundo, nele está sua glória. O homem medieval se via uma criatura de Deus corrompida, porém pelo pecado, todo empenho, portanto, estava em negar-se a si mesmo. Ele deveria, neste mundo, padecer e sofrer, para poder gozar, no outro, da felicidade eterna, no convívio dos santos e na visão beatífica de Deus. O inicio do processo de laicização do mundo, se da a partir do século 12. O homem se descobre, numa visão mais otimista dotado, portanto de intrínseca dignidade. No humanismo esta o embrião da revolução cientifica do renascimento. Uma das características do iluminismo é a exclusão do elemento religioso do campo da moral. O mundo dos valores é laicizado e esses caem. É aqui na terra quê se devem realizar, os ideais de felicidade humana. Durante longos anos a sociedade trabalhou para a gloria do príncipe e impulsionada por um projeto de vida sobrenatural e eterna: agora, tratava-se de resgatar os direitos do individuo que emergia e pisava sobranceiro o território que julgava poder conquistar e submeter. É do individuo que se trata, quando a revolução francesa define os direitos do homem e do cidadão, mais especificamente: é da felicidade do individuo que se trata. O homem se descobre e se proclama dotado do direito de ser feliz. “Uma felicidade obtida a duras penas e mortificações nesta existência. No direito, cabe apenas lembrar como é onipresente, a figura dominante do individual e do privado. O principio do direito a felicidade individual, é a chave mais importante para a compreensão do discurso da modernidade, a idéia de felicidade, trata-se de algo novo não mais uma aspiração, mas um direito para cujo atendimento devem, ser organizados. “Cuidar da vida e da felicidade humanas e não de sua destruição” diz Thomas Jefferson. Quem de fato usufrui o direito a felicidade no mundo que o discurso liberal pode legitimar?

“O homem está ligado diretamente há filosofia até no ato de filosofar e em busca do saber, em indagar, questionar junto à filosofia o homem se idealiza”.

Thamário Everley Conrado Pereira é acadêmico de Direito, da Faculdade Alfredo Nasser e membro ativo do Pajupu (Programa de Assessoria Jurídica Popular Universitária)
Email: t.everley_stylenet@hotmail.com

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