quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Escola, poder e democracia.

“Os homens constroem paredes demais
e pontes de menos” (D.Pire)


A escola pública e democrática é hoje uma conquista institucionalizada, mas que, na prática, ainda está longe de ser realidade plenamente vivenciada na escola. A escolha democrática das direções escolares ainda não permitiu condições democráticas de organizar as escolas a partir de uma base curricular, das propostas pedagógicas, das metas e da organização do quadro dos professores (distribuição da carga horária e disciplinas).    
A escola, lugar de significativas e distintas aprendizagens, é também um grande laboratório de exercício de poder. Cotidianamente, através das relações interpessoais, ela administra as suas tensões internas, fortemente influenciadas pelo poder externo (dos governos e da comunidade). E, o professor, uma peça fundamental, nem sempre é considerado em sua dimensão de pessoa humana e de sujeito, portador de desejos, direitos e dignidade.
Além de sua estrutura administrativa, a escola é um lugar onde se constroem vínculos. Estes vínculos determinam a qualidade das relações entre professores, funcionários, equipe diretiva, alunos e pais. A maior diferença da escola pública, em relação às demais, reside no fato de sua gestão ser pública e democrática. E é nesta que, para além de professores, cresce a exigência por educadores. “Todo professor deve ser um verdadeiro educador. Um mestre da vida e do saber. É mestre porque é homem de fé, que acredita em si e nos outros, que confia e ama seus discípulos” (Maximiliano Menegolla)
    Professores não são números. Professores são sujeitos, seres humanos, com suas opções pedagógicas e ideológicas. Aliás, o exercício de seu ofício não lhes permite neutralidade, pois a educação é, por natureza, um ato político. Suas práticas pedagógicas resultam de suas trajetórias pessoais, de seus compromissos com o ser humano e de seus conhecimentos e aperfeiçoamento profissional.
    Algumas instituições de ensino público, por suas práticas contraditórias e autoritárias, minimizam o alcance e a importância das conquistas democráticas. É claro que exercitar cotidianamente a democracia, como se faz na escola, não é uma tarefa fácil. Por isso que, para muitos, ela não passa de “verborragia”. Para outros, incansável exercício, prática de inclusão e respeito a todos, mesmo enfrentando as contradições do discurso e da prática.
    Alguns colegas, agora diretores ou diretoras, “constroem paredes demais e pontes de menos”. Usam do poder que lhes foi delegado para desconsiderar seus professores e ofuscar a democracia, por todos pretendida e proclamada.“O lugar onde o professor não é visto como pessoa, mas simplesmente como um profissional qualquer, deve ser chamado de pensionato, refeitório..., mas não chamem de escola, onde se educa e se ensina”.(Menegolla)
    O exercício do poder democrático é um dever da escola e um legado que ela deve deixar para seus alunos e para a sociedade como um todo; esta é sua contribuição para a consolidação da democracia no Brasil. Qualidade na educação será uma realidade quando tratarmos gente como gente deve ser tratada e quando tomarmos a democracia como a base de nossas relações.

Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos.
pies.neialberto@gmail.com

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Ética, política e participação.

ELZA MARIA BRITO PATRICIO*
PROFESSORA UNIVERSITÀRIA




Ética e Política são dois campos de investigação da Filosofia que nasceram na Grécia Antiga, existindo entre as duas uma inseparabilidade, considerando que a política precisa se desenvolver como um sistema normativo, fundado em valores e critérios que regulam um conjunto de ações envolvendo o coletivo, o que implica compreender que elas não estão isentas de deveres, e naturalmente, devem respeitar os direitos. Enquanto atividade coletiva, a Política pressupõe exigências éticas no seu desenvolvimento, embora haja confrontos de grupos antagônicos, o que potencializa o choque entre os princípios ético-morais da formação dos indivíduos e leva claramente a um desvirtuamento do poder.

Constata-se que as alianças políticas, não são construídas muitas vezes, visando ao bem comum, á coletividade, ao contrário, levam em conta os interesses particulares e a busca de satisfação deste ou daquele grupo político que deseja se manter com privilégio na esfera de poder e camuflar suas reais intenções. Por incrível que pareça, a bandeira da ética é empunhada por todos e as posições se embaralham: uns, com postura astuciosa, procurando sustentar o processo eleitoral; outros, procurando tomar medidas mais incisivas contra a corrupção incrustada em várias instituições do Estado e nos Órgãos Executivos.

No entanto, o que se vê é uma degeneração político-moral e, dentre muitos deslizes, destacam-se os desmatamentos e prevaricações, improbidade administrativa, falcatruas, atos abusivos do poder, que representam “as doenças” do sistema político. Vale ressaltar que sendo a política divulgada pelos meios de comunicação, acentuando-se os pontos precários, esta acaba sendo avaliada negativamente pelo comportamento amoral de muitos políticos que pertencem a diversas esferas do poder; contudo, essa generalização é perigosa e desencadeia uma insatisfação com a própria classe política, surgindo uma forte tendência para o voto nulo.


Seria essa a decisão mais acertada? A nosso ver, essa atitude indica a renúncia injustificada á participação no processo democrático, um descomprometer-se, um jogar no “lixo” um direito e um dever e isso só beneficiaria os que comentaram desvios de conduta no exercício do poder. E por falar em participação, como seria a sua efetivação? Enquanto seres sociais precisamos amadurecer o nosso entendimento de ser-cidadão e, de forma deliberada, racional e reflexiva, saber co-participar e assim nos constituirmos como seres políticos, na medida em que toda ação que gera conseqüências no coletivo, tem o caráter de politização e deverá estar pautada em princípios de natureza ética que envolvem valores de justiça, de liberdade, de responsabilidade.

Diante de tais considerações, não podemos nos eximir de tantas questões de natureza política, nem nos retirar do processo decisório; não devemos ser passivos nem silenciosos, porque, quanto menos participarmos, mais as decisões serão tomadas pelas “engrenagens da máquina governamental” em todos os níveis. Será que nós, que compomos a sociedade, estamos abdicando do nosso direito de participação? Precisamos, sim, procurar entender para poder sugerir, discordar, atuar como sujeitos do processo democrático, conquistar espaço, enfim, exercer nossa cidadania.

Afinal, é necessário ter consciência de que na sociedade, seja a alimentação, a saúde, a moradia, tudo depende das decisões políticas. Assim sendo, neste momento ímpar de votação, na maior eleição de nosso país, convém examinarmos criteriosamente os problemas nacionais e estaduais, ter discernimento para fazer objetivamente as devidas ponderações, construir nossa compreensão e escolher com cuidado os políticos que representem uma renovação qualitativa e que possam desempenhar suas reais funções com retidão, eficiência e responsabilidade comprometidos com o coletivo, portanto, imbuídos de espírito público. Urge que a política brasileira venha instaurar uma nova forma de fazer política, tendo na ética um de seus principais pilares e operando uma grande virada cultural para que possamos alcançar um Brasil mais justo e democrático.


* Professora de Filosofia, aposentada da UFMA.