quinta-feira, 10 de junho de 2010

EDUCAÇÃO À DERIVA

 Jéferson Dantas *

          Agressões em sala de aula, crianças e jovens vítimas do bullying eletrônico; ameaças sistemáticas envolvendo diferentes grupos de jovens, identificados pelas suas opções musicais, roupas, adereços, cabelos e espaços sociais compartilhados. Há muito as escolas públicas, notadamente (mas não só), têm se tornado o local privilegiado do ‘acerto de contas’, que ocorrem à revelia dos/as que estão à frente do processo educacional. E isso tem acontecido, frequentemente, com adolescentes do sexo feminino, numa demonstração de força e sustentação de liderança até então mais visivelmente associado aos rapazes. Os motivos das agressões, muitas vezes, são fúteis e torpes, como o que ocorreu recentemente numa escola estadual de Joinville. No filme-documentário do diretor João Jardim (Pro dia nascer feliz, 2007), esta realidade está bastante patente nas escolas públicas de periferia, tendo em vista que estes/as jovens estão mergulhados em contextos estruturais de violência e impossíveis de serem atendidos pelos mecanismos (pífios) de inclusão social da escola.

          Contudo, a relação quase esquizofrênica envolvendo escolas e o aparato tecnoburocrático educacional, demonstra a sua total ineficácia e o jogo do ‘empurra-empurra’ no que concerne à responsabilização das demandas trazidas por esta juventude cada vez mais indiferente à escola. As gerências educacionais maximizam dinâmicas de controle em relação à obediência do calendário escolar, interpretando unilateralmente leis educacionais e retirando a autonomia das unidades de ensino quando a questão é centralmente pedagógica; mas, quando as evidências são de cunho estrutural, o Estado culpabiliza as escolas, enfatizando que as mesmas têm ‘autonomia’ para solucionar os problemas associados à violência.

          Ora, se fizermos um mapeamento minucioso nas escolas públicas e privadas, provavelmente encontraremos centenas de relatos de violência envolvendo estudantes contra estudantes, educadores contra estudantes e vice-versa; além disso, as mínimas condições de trabalho não são respeitadas (banheiros estragados e fechados, preparo da merenda escolar sem condições de higiene, falta de água potável, tetos prestes a desabar na cabeça de estudantes e educadores, inexistência de áreas de recreação, etc.). Enfim, uma arquitetura escolar que oprime mais do que educa.

          A relação ‘autista’ que as escolas têm com o aparato tecnoburocrático educacional produz, em última instância, o não diálogo e culpabilizações recíprocas que não equacionam questões emergentes, fazendo com que a Educação fique cada vez mais à deriva.

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* Professor universitário e Doutorando em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). E-mail: clioinsone@gmail.com. Consultor e articulador pedagógico na comissão de educação do Fórum do Maciço do Morro da Cruz (CE/FMMC).

Jéferson Dantas também é um dos autores
do SER - Sistema de Ensino Reflexivo,
pela Editora Sophos.

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Dialogando com a História
(Coleção Didáticos Reflexivos do SER).

quinta-feira, 3 de junho de 2010

De lixo, roupas, solidariedade.

“Desde o 11 de setembro de 2001 que o mundo não tem sido original. Não que eu deseje que atentados dessa magnitude se repitam: já bastam os homens-bomba, que viraram rotina. É só um desabafo: hoje, os absurdos se sucedem em escala industrial e os fatos novos são como mariposas, nascem e morrem no mesmo dia”. (Martha Medeiros, ZH 12.05.10)

       Roupas são simplesmente artigos para quem não precisa fazer uso delas. Não tem nenhum significado para além do valor mercadológico (do
quanto custam). Se não valem mais nada, porque não servirem ao lixo?
A imagem de um monte de roupas depositadas no lixão em Passo Fundo
revela faces da crueldade humana que já fazem parte de nossa
humanidade. A imagem impressiona tanto porque ela lembra outra imagem:
a de crianças, jovens e velhos, em dias de frio, passando frio por não
terem roupas suficientes para se aquecer em nosso rigoroso inverno.
Surge, então, a mais intrigante pergunta: o que é que motivou alguma
pessoa a decidir que estas roupas, ao invés de servir para agasalhar,
tivessem o destino de um lixão?

       Uma das razões talvez seja a de que estamos desaprendendo
solidariedade. Ser solidário não é desfazer-se de coisas que a gente
não deseja mais para oferecê-las aos outros. Ser solidário não é,
muito menos, livrar os guarda-roupas das roupas e sapatos velhos. Ser
solidário, verdadeiramente, é dar algo de si para os outros, sem
esperar nada em troca. É ser capaz de doar um pouco do que temos para
alguém que pouco ou nada tem. É compadecer-se do sofrimento alheio,
fazendo sempre uma ação que possa, efetivamente, aliviar o sofrimento
dos outros.
        Pois, talvez, as roupas encontradas no lixão não serviam à
solidariedade e não tinham nenhuma conotação ou significado
humanitário. Estavam por aí, “incomodando” em algum depósito ou sala.
Só pode ser...
Mas como é que, repentinamente, estas mesmas roupas, descartadas por
alguém no lixão, produziram perplexidade, comoção e revolta de um
grande número de pessoas? Por que somente nós é que temos esta
capacidade de transformar as coisas profanas em coisas sagradas. E o
sagrado e profano sempre estão muito misturados. Neste caso, de uma
hora para outra, as coisas (roupas sem aparente valor) assumiram uma
dimensão sagrada (promover a humanidade).
Alguém cometeu o equívoco de não considerar que peças de roupas
contém, em si mesmas, um valor sagrado. Estas roupas, para muita
gente, ampliariam as possibilidades de viver um pouco melhor, de
cobrir melhor o seu corpo. A decisão de jogá-las no lixão fere a
dignidade humana. Por isso, quem descartou as roupas no lixão deve ser
responsabilizado. A vida é sempre o bem maior e as coisas, os objetos,
sempre tem um valor secundário. Mas mesmo quando tratamos de coisas,
de coisas que servem à dignidade humana, estas adquirem valor e
sentido sagrados.

       O episódio das roupas no lixão não esmorecerá nosso desejo de
construir humanidade. A vida na solidariedade é o caminho para quem
deseja construir verdadeira felicidade. Sejamos solidários: sempre,
verdadeiramente.

Nei Alberto Pies, professor e ativista em direitos humanos.

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