sexta-feira, 12 de março de 2010

Lições do português

Autor: Matheus Arcaro
(fonte no final do texto)

Hoje pela manhã bateu aquela saudade dos tempos de colégio. Nostalgia gratuita que, vez por outra, alimenta uma ilusão semi-esquecida. Goma de mascar embaixo da cadeira, lápis no chão para contemplar a calcinha da professora, baladas no pátio embaladas ao som do Di Georgio e as aulas de português. Ah! Como eu gostava das aulas de português. Sempre admirei o que as palavras podiam mostrar, mas o fascínio maior era por aquilo que elas escondiam; que diziam sem dizer.
Apropriando-me da “parte pelo todo”, posso garantir que grandes lições foram e são ensinadas, mas não necessariamente aprendidas.
Um dos equívocos mais comuns cometidos mesmo por alunos aplicados no passado diz respeito aos verbos. Amar, por exemplo. Somente conjugado no presente do indicativo, afirmativo, na primeira pessoa do singular. E sempre questionado em terceira. Cisma de que haja de fato essa terceira pessoa? Bem provável.
A transferência de atributos que este verbo vem sofrendo é, no mínimo, curiosa. Eu amo virou eu possuo. Te amo é você me pertence. Pessoas se tornaram objetos: diretos quando usados explicitamente e indiretos quando uso é dissimulado. Tudo para que o tal verbo não seja conjugado no pretérito, ainda mais no perfeito, que de perfeito nada tem.
Já o verbo respeitar é um tanto quanto paradoxal. Apesar de estar na pauta de muitas discussões, é inconjugável na maioria das situações.
Em conflito, está o modo imperativo: não vai! Vou sim! Volta aqui! Volto nada! A conseqüência deste discurso é uma acentuada desobediência à concordância. A voz reflexiva até tenta consertar. Em vão. A ativa toma o lugar da passiva e vice-versa e o que resta é o silêncio cortante da incoerência.
O vocativo, antes esquecido e amparado pelas vírgulas, agora passeia soberano pela boca de quem ordena: Fulano, chega! Cicrano, pára!
As coordenadas não têm mais vez. Foram engolidas pelas subordinadas. Subordinação que não se restringe apenas às orações, ramificando-se para os pronomes possessivos, os adjetivos mal empregados e, principalmente, para o sujeito, antes simples, agora composto. E, muitas vezes, por um fenômeno lingüístico, composto e oculto ao mesmo tempo. E essa regência imposta, sequer o Professor Paschoali é capaz de compreender.
Nem mesmo a conotação poética de algumas frases tais como “você é tudo para mim” ou “você é uma rosa”, consegue remendar erros interpretativos da vida afetiva. As figuras de linguagem, exceto a hipérbole e a metáfora, parecem ter se rebelado contra a coesão, derivando-se assim tempos e os modos primitivos, vigentes nesse tipo de envolvimento.
Se seguissem às orientações do velho Aurélio, alguns preceitos já seriam concebidos de forma diferente. Segundo ele, relacionamento é a ligação afetiva condicionada por uma série de atitudes recíprocas.
Reciprocidade. Liberdade. Sufixos iguais, palavras complementares numa relação.
E como a língua portuguesa condena o didatismo exato, a verborragia aí de cima pode ser interpretada como convir ao leitor.

Fonte: http://oqueinspira.blogspot.com
Publicado e divulgado sob autorização do autor.

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LANÇAMENTO
Título: LINGUAGEM: CONEXÃO COM O MUNDO
Coleção LINGUAGEM: A ARTE DA REFLEXÃO


Autores: Dóris Day Soares e Rosane Hart
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quinta-feira, 4 de março de 2010

A APARÊNCIA ENGANA?


Diferente do que a grande maioria das pessoas diz a aparência NÃO engana. Simplesmente ela externa um estado de momento da pessoa. Se estou bem, produzo-me como tal. Se estou mau, produzo-me como tal. Se estou feliz, capricho em uma aparência de alegria, desde a cabeça aos pés. Minhas palavras, sentimentos e atitudes retratam, mostram, especificam quem sou no momento. Se estou infeliz, enraivecido ou triste, trato-me como tal.

O meu estado de momento  tanto  influencia como é  influenciado pelo estado de momento das outras pessoas. O que comumente se escuta é que a aparência engana. Tal afirmação  leva em consideração a perspectiva do outro em relação a você. Este é um  lado da situação, visto que estamos, é verdade, submersos em um mundo que tem feito opções por valores questionáveis.

Se vou a algum lugar levo comigo meu estado de momento em minha aparência, minhas palavras, meus sentimentos, minhas atitudes. Se a minha intenção (objetivo) é expor uma “aparência”, estou tentando enganar a mim mesmo. Afinal, a minha  intenção de,  leva-me a expor tal aparência. Não estou conseguindo fugir ao que sou de momento.

Como a minha  aparência  também  influencia  às outras pessoas, é de  se esperar  comportamentos diversos e adequados à aparência que exponho no momento. Há uma excessiva preocupação com o “olhar do outro”. O processo de introspecção é atropelado pela correria sem fim do dia-a-dia, pelos sonhos desenfreados do TER em detrimento do SER. Bons valores sociais, políticos, econômicos e religiosos precisam fazem parte do bate-papo diário, das discussões em sala de aula, dos momentos em família.

Se nos conhecêssemos um pouco mais em cada um de nossos momentos, não sofreríamos tanto em detrimento aos olhares dos outros. A boa convivência partiria do exercício de respeitarmos, embora possamos não acolher, o momento de aparência exposto por cada um.

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