quinta-feira, 14 de abril de 2011

Deleuze e a questão da Educação

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

Para Gilles Deleuze, filósofo e pensador francês do século passado para quem a Filosofia precisa trazer no seu bojo uma habilidade do sujeito para com o mundo das coisas “já feitas”, imputando nelas conceitos como consequência de um movimento, de um fluxo, de uma torrente de vida que procura distinguir o real do virtual, é muito importante que o debate educacional seja eminentemente crítico.

Não uma crítica pela crítica, mas a crítica pelo esclarecimento, onde o educador jogue luzes sobre um mundo a ser conhecido, a ser tomado pela reflexão.

O que dá sentido à Filosofia, no entender de Deleuze, é uma teoria das multiplicidades, impregnada pelo devir de Heráclito de um modo processual de movimentos, assumidamente intenso e extenso que dificilmente poderíamos trocar em miúdos aqui, devido à escassez de tempo e de espaço.

Todavia, aventurando-se a tocar na cerviz de seu pensamento, é notório conceber dois tipos de multiplicidades(extensivas e intensivas) que substitui o velho dualismo entre o uno e o múltiplo por outro, na medida em que essas multiplicidades não pertencem a dois mundos separados, incomunicáveis, opostos, mas pertencem a um só e mesmo mundo. Por Deleuze, mostra-se para nós, uma Filosofia intensamente pragmática, na qual experimentar é sua constante palavra de ordem. “Não basta dizer VIVA O MÚLTIPLO. É preciso fazer o múltiplo” (Gilles Deleuze, Mil Platôs, pág. 14).

Algo interessante no problema educacional é habilmente percebido por Deleuze que reconhece algo de mistério no aprender. O aprender é consequência de um encontro intempestivo e sem finalidade com o heterogêneo de uma multiplicidade intensiva.

Nunca se sabe como uma pessoa aprende; mas, de qualquer forma que aprende, é sempre por intermédio de signos, perdendo tempo, e não pela assimilação de conteúdos objetivos” (Gilles Deleuze, Proust e os signos, pág. 21. 2003).

Deleuze estabelecia com as ondas do mar uma relação de muita estranheza, tanto é que adorava dar o exemplo do aprender a nadar como constituindo justamente esse encontro com o heterogêneo:

O movimento do nadador não se assemelha ao movimento da onda; e, precisamente, os movimentos do professor de natação, movimentos que reproduzimos na areia, nada são em relação aos movimentos da onda, movimentos que só aprendemos a prever quando os aprendemos praticamente como signos. Eis porque é tão difícil dizer como é que alguém aprende: há uma familiaridade prática, inata ou adquirida, como os signos, que faz de toda a educação algo de amoroso, mas também de mortal. Os nossos únicos mestres são aqueles que nos dizem ‘faça comigo’ e que, em vez de nos proporem gestos para reproduzir, sabem emitir signos a serem desenvolvidos no heterogêneo” (idem, Diferença e repetição, p. 54, 1988).

Portanto, a violência travada no encontro com o diferente não impede que se entre em ressonância com ele. Até porque, para Deleuze, apaixonar-se é aprender, mas talvez, ousássemos inverter a definição e afirmar que aprender é apaixonar-se.

Apaixonar-se é individualizar alguém pelos signos que (esse alguém) traz consigo ou emite” (idem, Proust e os signos, p. 7, 2003).


jackislandy Meira de Medeiros Silva - jacksil05@yahoo.com.br



Para saber mais:

Deleuze foi professor e filósofo francês que, não escreveu sobre a educação. Porém suas reflexões são inusitadas, diferentes, inconformistas. Atributos que não faltam à vasta produção desse pensador. Graduado em Filosofia na Sorbonne, Deleuze foi professor secundário de Filosofia, pesquisador e professor universitário. O vigor e o inusitado, o inspirador e a consistência que marcaram seu pensamento justificam o deslocamento da obra de Deleuze para o campo da Educação.

Filósofo francês nascido em 1925, Gilles Deleuze foi contemporâneo e amigo de Michel Foucault. O seu grande contributo para a Filosofia reside em grande parte na vasta quantidade de estudos dedicados à sua história. Na opinião de Deleuze, a Filosofia, tal como qualquer outra disciplina, possuí uma função específica: criar conceitos. São os conceitos que impedem que o pensamento seja confundido com "uma simples opinião".

2 comentários:

  1. Apaixonante!! Creio que aprender é como um vício, um vício bom,mas que também tem seu lado escuro,confuso,devastador, por que ao aprendermos estamos lidando com nossos sentidos,nossa imaginação,desrazão e razão,com valores impressos de muitos padrões economicos e socias,com toda a potência dos genes e sobre tudo nossa alma, que não é aparente e talvez nem mesmo exista,caso for, aprendemos também com nossas ilusões, Agora ao vermos o lado bom do vício é quando acontece de nos apaixonarmos pelo saber,cultivando esse amor a qualquer custo,e por isso brigamos para poder sustentá-lo,preservá-lo,o lado obscuro é que assim como qualquer vício temos que aprender ao final do "balance" controlar nossa respiração,nossa pulsão,para enfim apreciar em paz toda essa energia vital que é liberado fisicamente ao aprendermos.

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  2. Kelly Cristina Scherer15 de abril de 2011 09:45

    Apaixonante!! Creio que aprender é como um vício, um vício bom,mas que também tem seu lado escuro,confuso,devastador, por que ao aprendermos estamos lidando com nossos sentidos,nossa imaginação,desrazão e razão,com valores impressos de muitos padrões economicos e socias,com toda a potência dos genes e sobre tudo nossa alma, que não é aparente e talvez nem mesmo exista,caso for, aprendemos também com nossas ilusões, Agora ao vermos o lado bom do vício é quando acontece de nos apaixonarmos pelo saber,cultivando esse amor a qualquer custo,e por isso brigamos para poder sustentá-lo,preservá-lo,o lado obscuro é que assim como qualquer vício temos que aprender ao final do "balance" controlar nossa respiração,nossa pulsão,para enfim apreciar em paz toda essa energia vital que é liberado fisicamente ao aprendermos. Lados tão contrários,tão contraditórios? Quem sabe conhecer ,aprender não seja tão certo, e é mesmo essa dualidade,essa desarmonia que corre para seu leito de paz.


    Kelly( Filosofia.).
    Versão inteira, a anterior não tem a parte final.

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