quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Será que palavras morrem?


Nei Alberto Pies
“As pessoas escrevem a partir de uma necessidade de comunicação e de comunhão com os outros, para denunciar aquilo que machucava e compartilhar o que traz alegria. As pessoas escrevem contra sua própria solidão e a solidão dos demais porque supõem que a literatura transmite conhecimentos, age sobre a linguagem e a conduta de quem a recebe, e nos ajuda a nos conhecermos melhor, para nos salvarmos juntos. Em realidade, a gente escreve para as pessoas com cuja sorte ou má sorte se sente identificado: os que comem mal, os que dormem pouco, os rebeldes e humilhados desta terra; que em geral nem sabem ler” 
 (Eduardo Galeano, In: Vozes e crônicas. São Paulo: Global/Versus, 1978)

A 14ª Jornada Nacional de Literatura, que aconteceu em Passo Fundo, RS, é um evento grandioso, de relevância cultural e literária, que corrobora com a convicção de que palavras só adquirem sentido quando colocadas em movimento. A Jornada Nacional de Literatura e a Jornadinha fazem parte de um enorme esforço de um grupo de pessoas que, por suas crenças e ideários, re-afirmam o papel da literatura em nosso momento histórico. 

Na condição de participante/expectador deste grande evento literário gostaria de referir a necessidade que temos de justificar a importância e o uso das palavras. Vivemos num momento histórico em que tudo parece ser passível de coisificação e preço, inclusive as obras da criação humana. Perdemos a noção do conceito de valor, atributo que só poderia ser conferido a quem cria e transforma mundo e humanidade: o próprio ser humano. E a literatura, por ser obra da criação humana, não tem preço, mas tem valor. Por isso mesmo ela deveria ser um produto cultural disponível e acessível a todos, independente de sua condição social, econômica ou cultural. Deveria ser amplamente divulgada e apreciada como parte da nossa constituição de sujeitos sociais, de nossa cidadania e de nossa democracia.

Eduardo Galeano, em seu texto Em defesa da palavra, profetiza que a escrita não possui razões para justificar-se solitariamente. A escrita, na sua visão, “só pode ser útil quando coincide de alguma maneira com a necessidade coletiva de conquista de identidade”. Dito de outra forma, o escritor afirma seu desejo de ajudar muitas pessoas a tomarem consciência do que são. Ele está falando da função social que a literatura exerce sobre a vida de uma comunidade, a vida de uma nação. “Que bela tarefa a de anunciar o mundo dos justos e dos livres! Que função mais digna, essa de dizer não ao sistema da fome e das cadeias – visíveis ou invisíveis!”

As palavras morrem se não as colocarmos em movimento. E não serão os mais modernos meios de comunicação e entretenimento que tornarão mais disponíveis as obras literárias, criando a tão almejada cultura da leitura. As palavras escritas, contadas e recontadas, sobreviverão se formos capazes de viver o espírito literário da criação, da imaginação e da projeção de um mundo mais humanizado, mais solidário, mais cheio de alegria e mais vazio de tristeza e decepção. A literatura anuncia um mundo novo, criando ferramentas e habilidades capazes de nos fazer mudar a realidade que, de tão nua e crua, parece nem sempre permitir a busca de soluções.

Por mais individualizados e egocêntricos que possamos ser, desejamos participar dos movimentos desencadeados pela arte e pela criação humanas. Seja nas relações interpessoais, nos eventos culturais, nos grupos sociais dos quais fazemos parte, estamos sempre arrumando formas e jeitos de nos comunicar, de fazer as palavras circularem sentidos e impressões de nossa vida individual ou coletiva. Mesmo quando esta busca é individual, o processo envolve os outros, como no relato que segue: “Triste, tuitou "Sinto-me só!”. Setenta milhões retuitaram e novecentos mil responderam "Eu também!"(Cem toques cravados, Edson Rossatto)

Dá para pensar um mundo sem a literatura? Dá para ser feliz sem brincar com as palavras? Se não dá, deixemo-nos contagiar pelos movimentos que emergem da vida e das nossas palavras.

6 comentários:

  1. Não... as palavras não morrem... jamais morrerão... Enquanto existir escritores e editores, a comunicação estará chegando a todos através da literatura.

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  2. Jadilson Vilas Boas9 de fevereiro de 2012 18:22

    Caro Professor Nei,

    Exercer a docência num país onde o que menos se ensina é o gosto pela leitura, não é tarefa fácil. Contudo, fico muito contente em saber que existem pessoas preocupadas, não com o futuro da sociedade mas, com o que se fará no presente já que o nosso passado a cada dia é esquecido. Parabéns.
    Jadilson Vilas Boas / Professor da Rede Estadual em Vitória da Conquista - BA

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  3. Professor Nei:
    Em primeiro lugar parabenizo a expansão do pensamento do Escritor Latino, sou Argentina faz seis anos moro em Londrina PR estudante de Pedagogia da UEM, estou no meu ultimo ano, ministro aulas de Espanhol em colégios Particulares e sem duvidas faço uso das duas línguas para me comunicar, trabalho textos, noticias, particularidades escritas de qualquer país de America, Espanha e até de Brasil.
    Hoje se faz difícil para qualquer Docente incentivar a Leitura e escrita, mas é uma das minhas práticas em qualquer dos anos que leciono. Costumo no momento de me apresentar contar como me envolvi e aprendi a língua Portuguesa, não fiz cursinho, não fiz aulas particulares, aprendi lendo jornais, revistas, livros de crianças e como apaixonada pela Filosofia, peguei uma gramática, um livro de historia, um de geografia e filosofia armada com um dicionário português-espanhol e “Bola para Frente” passei no Vestibular e pretendo ministrar aulas no ensino fundamental para fixar meu curso e gratidão por um país de portas abertas como é denominado Brasil “El Gigante de América del Sur”
    "A memória guardará o que valer a pena. A memória sabe de mim mais que eu; e ela não perde o que merece ser salvo." Galeano-
    Estamos falando das palavras que não devem morrer.
    La memoria guardará lo que vale la pena. La memoria sabe de mi más que yo; y ella no pierde lo que merece ser salvo.
    DÉBORA GRACIELA RADENTI

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  4. Neste país é árduo o trabalho de desenvolver o prazer pela leitura, mas o que importa realmente é não desistirmos. Mesmo que para o professor é desesperador,vamos continuar a insistir, incentivar nosso leitor a apropriar da leitura e escrita e quem sabe, desenvolver a própria.

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  5. Palavras só morrem se quisermos. Elas representam liberdade, alegria, viagem ao desconhecido.

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