quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Filosofar sim, para Viver melhor!



 Prof. Dr. Cesar Nunes

“A Filosofia anuncia a vida, a justiça, a alegria de pensar e de sentir, e nesse caminho da história o Centro de Filosofia Educação para o Pensar (Florianópolis/SC) fez seu próprio existir, seu Ser, como uma trincheira de humanização,como um horizonte de fraternidade e solidariedade para todas as pessoas”.

Prof. Dr. Cesar Nunes, queremos conhecê-lo. Conte aos leitores sobre alguns de seus sonhos, suas alegrias, realizações... 
 - Meu sonho é ver nosso País, que é tão belo pela sua natureza, pelos seus mares, suas montanhas, seu céu, suas terras férteis, suas florestas e seus rios, seus animais e suas flores, ser reconhecido também pela felicidade de seus habitantes, com todas as crianças nas escolas, com jovens cheios de vida e de esperanças, com pessoas sensíveis e justas buscando sempre a paz e a justiça, o bem-estar de todos e a sustentabilidade ambiental! Meu sonho é ver um Brasil socialmente mais justo e humanizado!

1. Qual é a “paixão” que sempre o motiva para ser Educador?
- Minha “paixão” é a educação. A tarefa de educar tomou minha vida e meu coração na minha juventude. Sigo fazendo da educação meu jeito de viver e de acreditar na vida. O educador está sempre motivado pelo brilho do olho de seus alunos, quando estes interessam-se pelos temas da educação, pelo sentido da vida, pela ética, pela justiça, pela preservação ambiental, pelo respeito aos mais velhos, pela dedicação a seus pais. O que motiva o educador é a vontade de fazer de seus estudantes pessoas melhores!

2. Muitas pessoas que passam em nossa vida servem de "modelo". Como deve agir o educador de sala de aula, nos dias atuais, para ser modelo para seus alunos?
- O educador precisa ter na sua alma as mesmas virtudes que deseja para o mundo: se ele quiser que as pessoas se respeitem, deve respeitar seus alunos; se ele quiser que as pessoas trabalhem em grupo, deve ele ser o primeiro a colocar no grupo seus anseios; se ele quiser que as pessoas pesquisem, deve ser um permanente pesquisador; se quiser que todos tenham confiança nele, deve confiar em seus alunos. O professor, o educador, é um esticador de horizontes. Os maiores vínculos que precisam ser constituídos na educação são o vínculo humano, o pertencimento ético e a prática de relações solidárias.

3. O senhor vê os professores hoje como pensadores dentro de uma práxis pedagógica (ação-reflexão-transformação)?
- Sim, os professores são pensadores, são o elo entre as gerações passadas e as gerações presentes, e desse modo são o penhor das relações futuras. Eu respeito muito os professores, pois estes são os fiadores da cultura humana, os mediadores das relações humanas, sociais, culturais, éticas, etc.. Os professores precisam muito entender que sua identidade maior consiste em humanizar as gerações mais novas. Hoje as tecnologias tornaram algumas tarefas de nossa vida muito mais fáceis, mas as maiores tarefas e desafios são aquelas de construir os sentidos humanos para nossa existência, as razões de viver, de amar, de trabalhar, de estudar, de conhecer e de preservar a natureza. Administrar as dimensões humanas é hoje a maior tarefa do educador, educar para a humanização, essa é a nossa práxis.

4. Professores assumem turmas com deficiências, com falta de espírito de equipe, sem comprometimentos com a transformação. Na sua opinião, quais são as origens desses problemas? 
- A educação e a escola no Brasil são instituições marcadas pelas mesmas estruturas da sociedade. Não pode haver uma separação nessa análise. Uma sociedade patriarcal, escravista, autoritária, que prevaleceu em 500 anos de nossa história cultural, produziu uma escola seletiva, meritocrática, excludente. Assim, nas fases anteriores de nossa sociedade, o professor foi destituído de sua identidade humanizadora, passou a ser um classificador de talentos para o mercado de trabalho, um estimulador dos primeiros lugares, um produtor de leões e falcões, deixando de lado a pluralidade e a diversidade humana. É preciso superar esta tradição: o professor deve olhar para cada aluno, para cada estudante, e respeitar a humanidade que há nele, seu jeito de ser, seu ritmo de aprender, suas formas próprias de expressar. As turmas não são assim tão deficientes. Se olharmos com olhos de compreensão humana, não é preciso fazer da escola uma corrida maluca para os primeiros lugares, não é uma competição. Escola é dádiva, não é cobrança, escola é acolhimento, respeito, espaço de ser! A origem dos grandes problemas da educação e da escola está na matriz política autoritária da cultura escolar e pedagógica. Uma outra matriz, humanista e emancipatória, deve superar essa tradição.

5. Crianças, Adolescentes e Jovens querem construir conhecimentos. Como o conhecimento está sendo trabalhado nas escolas?
- Conhecer é compreender os processos de todas as coisas que existem no mundo. E inventar outras coisas para o bem-estar de todos. Hoje o conhecimento é visto como ferramenta para o poder político e econômico, ou como mercadoria para se vender melhor no mercado de trabalho. Em última instância, se quer que as pessoas adquiram conhecimentos para ter um emprego melhor, ganhar mais, vencer na vida, etc.. Não discordo que tenhamos essas pretensões, mas não devemos reduzir toda a vida a isso. É preciso que o conhecimento sirva para tornar as pessoas mais humanas, mais acolhedoras, mais justas, mais felizes, mais comunicativas, mais dialógicas. Hoje o conhecimento está sempre trabalhado como instrumento de “competências e habilidades”, valores muito ligados ao ideário neoliberal. Eu prefiro que o conhecimento seja inspirado nas diretrizes éticas de “humanização e cidadania”.

6. Em muitas escolas, acontecem “pseudo-mudanças” (novas tecnologias, espaços redesenhados, mudanças curriculares...). O que precisa acontecer para esse espaço ser um lugar privilegiado de transformação pessoal e social?
- Há escolas que pensam com a cabeça do passado e acham que a educação ligada aos modelos arcaicos deve prevalecer. Há outras escolas que projetam a modernização tecnológica, material, predial, etc.. Em muitas escolas você entra na sala de matrículas e parece a NASA, mas ao entrar na sala de aula a pedagogia que ainda prevalece é da Idade Média, um professor ‘magistrocêntrico’, uma avaliação emulativa e uma finalidade disciplinadora (escola da obediência) na escola. Esse é um erro, uma contradição, uma escola será realmente nova, inovadora, transformadora, se for nova na atitude pedagógica, nas relações entre professores e alunos, entre os próprios docentes, com a comunidade de pais, relações humanizadas, de confiança, reciprocidade, autonomias e cooperação.

7. A escola é um local privilegiado para o desenvolvimento do conhecimento e da sensibilidade humana. O que fazer para que os educadores e educandos sejam autores de suas histórias?
- Eu entendo que a escola é uma instituição de humanização, isto é, de formação humana. Uma criança recebe de seus pais o amor e as características humanas basilares. E, na escola, deve receber e constituir as qualidades humanas sociais, coletivas, civilizatórias. Escola é lugar de se crescer como pessoa humana, para desenvolver todas as qualidades humanas, a linguagem, o pensamento, a socialibilidade, a comunicação, a ação conjunta, a cooperação, a ética. Celebrar juntos a beleza de existir! O que podemos fazer hoje é convencer aos pais, conscientizar aos educadores e sensibilizar as crianças e adolescentes dessa tarefa, fazer da vida uma alegre convivência, um encontro, um verdadeiro milagre!

8. Escolas públicas e particulares, em sua grande maioria, são movidas atualmente por avaliações (provinha Brasil, ENEM, concursos vestibulares...). O que é para você avaliar um aluno, um conhecimento?
- Avaliar para mim consiste em reconhecer e agregar valores. Neste sentido, eu acredito que a avaliação escolar, a avaliação de aprendizagem, deve estar submetida a um processo maior, a avaliação das relações e atitudes na escola. Aprender é existir, significa adquirir, assumir, a cada momento, novos saberes, conhecimentos, práticas. Toda criança, todo ser humano, aprende o tempo todo. Nascemos e aprendemos a vida inteira. Não existe criança ou pessoa que não aprenda. Se não conseguimos fazer de nossos processos escolares e curriculares projetos de aprendizagem, é porque perdemos a organicidade da relação com as crianças e os sujeitos ‘aprendentes’. Vivemos uma febre de avaliações e processos avaliativos, a maior parte deles sem sentido, baseados em acertos de conta, controle disciplinar, comportamental, concepções estanques de currículo, de ensino, de conhecimento. Eu acho que precisamos parar com essa indústria da avaliação na escola.

9. Está acontecendo a apropriação de conhecimentos filosóficos por crianças e jovens em escolas do nosso País. Isso pode mudar a perspectiva do conhecimento e da aprendizagem em sala de aula?
- A Filosofia é uma forma de pensar o mundo, pensar a vida, pensar as relações humanas carregadas de sentido, de questionamentos sinceros, de busca da verdade, de captação do que é essencial, e não daquilo que é supérfluo e passageiro. Vejo que a Filosofia nunca devia ter saído do currículo da escola. Sua suspensão ou retirada sempre aconteceu em períodos autoritários e excludentes. Hoje a Filosofia está presente nas escolas da Educação Básica. Para mim, isto é uma conquista e uma esperança. A Filosofia, através de seus conteúdos e de seu exercício metódico, é um caminho para compreender a vida, a felicidade, o diálogo, a sustentabilidade, a justiça. Filosofar é constituir sentido para a existência. Eu acredito que a presença, orgânica e verdadeira, da Filosofia no currículo escolar pode ampliar a perspectiva de humanização e de formação para a cidadania da Escola.

10. Um incentivo para os alunos (da Ed. Infantil ao EM) que, em todo o País, têm em suas escolas oportunidades de aprender a filosofar, a pensar por si mesmos, a construir Comunidades de Aprendizagem Investigativa.
- Busquem a Filosofia como se busca o ar, como se busca a água. Pois a Filosofia guarda a alma da humanidade, seus tesouros condensam o que a humanidade pensou de mais sublime, de mais justo e igualitário para sua vida. Procurem na Filosofia a imagem do tempo, que é o espaço para você ser feliz, ser você mesmo, construir seu caráter e sua identidade. Faça da filosofia um convite ao pensamento original, para não ser manipulado por ninguém. Aprendam na filosofia a ter seus pensamentos próprios, a falar por si mesmos, a valorizar suas vidas e respeitar as vidas dos semelhantes, e todas as formas de vida! Estudem a filosofia, ela trará consolo e motivação nas horas de dificuldades, ela fará brilhar as esperanças e dará condições para lutar contra todas as ditaduras, sobretudo das tecnologias sem sentido, do consumismo, do hedonismo e da violência, do preconceito e da competição. A filosofia nos convida a sermos seres humanos melhores!

11. Como educador, intelectual orgânico e sempre comprometido com a formação de educadores, deixe uma mensagem aos leitores e participantes do Centro de Filosofia Educação para o Pensar, que se prepara para os 25 anos de existência.
- Eu conheci o Centro de Filosofia Educação para o Pensar desde o seu início. E sempre admirei a luta e a dedicação de seus idealizadores e gestores, de seus professores, de todos os seus colaboradores e agentes. Eu mesmo estive presente em tantos encontros de formação, congressos internacionais, visitas a escolas, conversas com educadores, com os alunos, com suas produções, etc.. Parabéns ao Centro de Filosofia Educação para o Pensar! Nesses 25 anos, muitas pessoas tomaram contato com suas mensagens, seus projetos, seus textos, suas edições e jornadas! Bateu sempre o coração autêntico de uma comunidade de educadores, movidos pelo ideal de Sócrates, Platão e Aristóteles, e de tantos outros e outras, como Hanna Arendt, de fazer da vida um encontro, uma festa, um caminho para a felicidade, uma denúncia da violência, da banalidade da vida, da repressão e do autoritarismo. A Filosofia anuncia a vida, a justiça, a alegria de pensar e de sentir, e nesse caminho da história o Centro de Filosofia Educação para o Pensar fez seu próprio existir, seu Ser, como uma trincheira de humanização, como um horizonte de fraternidade e solidariedade para todas as pessoas!

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Prof. Dr. Cesar Nunes é licenciado em Filosofia, História e Pedagogia. Foi professor da Educação Básica e Coordenador Pedagógico em Escolas da Educação Fundamental e Média. Concluiu o Mestrado em Filosofia da Educação, defendeu o Doutorado em Filosofia e História da Educação em 1996, apresentou sua tese de livre-docência na área de Filosofia (ÉTICA) em 2006. Atualmente é professor titular da Faculdade de Educação da UNICAMP. É o vice-chefe do Departamento de Filosofia e História da Educação daquela unidade e o coordenador executivo do Grupo de Estudos e Pesquisas PAIDÉIA. Orientou 43 dissertações de mestrado e 19 teses de doutorado. Escreveu 26 livros sobre Ética, Filosofia, Educação e Sexualidade, além de dezenas de artigos científicos em revistas especializadas. É um dos mais destacados palestrantes e conferencista em Educação no Brasil.

Um comentário:

  1. Uma entrevista como poucas! Parabéns ao Professor Doutor César Nunes!

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